terça-feira, 1 de novembro de 2016

Aos Meninos e Meninas Que Ocupam as Escolas Públicas Neste Momento e aos que Ainda Não: Para o livro de literatura de segundo grau.



O NORTE oferece este poema à tod@s os meninos e meninas que ocupam as escolas que deveriam ser del@s mesm@s e também aos que ainda não ocupam nada e a todos os que apoiam e aos que não apoiam e aos que estão com ânimo e aos desanimados, aos esperançosos e aos desesperados que passaram a agir porque são desesperançosos cheios de esperança.



Para o livro de literatura de segundo grau,

Hans Magnus Enzensberger

Não leia odes, meu filho, lê os horários (dos trens, dos ônibus, dos aviões): são mais exatos.

Abre os mapas náuticos antes que seja tarde demais. Sê vigilante, não cantes.

Chegará o dia em que eles, de novo, pregarão listas
no portão e desenharão marcas no peito daqueles que dizem não.

Aprende a ir incógnito, aprende mais do que eu: a mudar de bairro, de passaporte, de rosto. Entende da pequena traição, da salvação suja de todos os dias. Úteis são as encíclicas para se fazer fogo, e os manifestos: para a manteiga e sal dos indefesos.

É preciso raiva e paciência para se soprar nos pulmões do poder o fino pó mortal, moído por aqueles, que aprenderam muito, que são exatos, por ti.


Eu falo dos que não falam (antologia), Editora Brasiliense, pag. 24,  1985.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Se os Tubarões Fossem Homens: Aos eleitores que acreditam na "política do rouba mas faz", que melhor seria que o pastor fosse o lobo.



Dedicamos este poema, que é na verdade uma metáfora ou uma parábola, a todos os trabalhadores que acreditam que o certo é que os patrões tomem conta da sociedade e do governo. Para os eleitores que acreditam na falsa ideia do rouba mas faz, que acreditam na lenda de que o melhor para os pobres é que os ricos governem, como fizeram a maioria dos eleitores na capital do Estado de São Paulo, em outras capitais e em tantas cidades do interior.


Ao mesmo tempo este poema pertence aos milhões de eleitores e de trabalhadores que sabem por experiência que não se deve colocar os lobos para cuidar das ovelhas, nem a raposa para tomar conta do galinheiro, por isto, votaram de acordo com suas consciências: Não importa se nulo, branco ou naquele candidato que está mais próximo dos seus sonhos de uma sociedade na qual viveremos do nosso próprio trabalho sem sermos explorados por ninguém.






Se os tubarões fossem homens


A menina filha da dona da pensão perguntou ao senhor Keuner: - Se os tubarões fossem homens, eles seriam bonzinhos para os peixinhos?

- Claro! Respondeu o Senhor K.


Se os tubarões fossem homens, eles fariam construir resistentes caixas no mar para os peixes pequenos com todos os tipos de alimentos dentro, tanto vegetais, quanto animais.


Eles cuidariam para que as caixas tivessem água sempre renovada e adotariam todas as providências sanitárias cabíveis. Se por exemplo, um peixinho ferisse a barbatana, imediatamente ele faria uma atadura a fim de que não morresse antes do tempo.


Para que os peixinhos não ficassem tristonhos, eles dariam cá e lá uma festa aquática, pois os peixes alegres tem gosto melhor que os tristonhos.


Naturalmente também haveria escolas nas grandes caixas, nas aulas os peixinhos aprenderiam como nadar para a goela dos tubarões.


Eles aprenderiam, por exemplo, a usar a geografia para aprender a encontrar os grandes tubarões deitados preguiçosamente por aí. O objetivo principal das aulas seria naturalmente a formação moral dos peixinhos.


Eles seriam ensinados de que o ato mais grandioso e mais belo é o sacrifício alegre de um peixinho, e que todos eles deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando esses dizem que velam pelo belo futuro dos peixinhos. 


Se encucaria nos peixinhos que esse futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência.


Antes de tudo os peixinhos deveriam guardar-se de qualquer inclinação baixa, materialista, egoísta e marxista e denunciaria imediatamente aos tubarões se qualquer deles manifestasse essas inclinações.


Se os tubarões fossem homens, eles naturalmente fariam guerra entre si a fim de conquistar caixas de peixes e peixinhos estrangeiros. 


As guerras seriam conduzidas pelos seus próprios peixinhos. Eles ensinariam os peixinhos que entre eles e os peixinhos de outros tubarões existem gigantescas diferenças, eles anunciariam que os peixinhos são reconhecidamente mudos e calam nas mais diferentes línguas, sendo assim impossível que entendam um ao outro.


Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos
Da outra língua, silenciosos, seria condecorado com uma pequena ordem das algas e receberia o título de herói.


Se os tubarões fossem homens, haveria entre eles naturalmente também uma arte, haveria belos quadros, nos quais os dentes dos tubarões seriam pintados em vistosas cores e suas goelas seriam representadas como inocentes parques de recreio, nos quais se poderia brincar magnificamente. 


Os teatros do fundo do mar mostrariam como os valorosos peixinhos nadam entusiasmados para as goelas dos tubarões.


A música seria tão bela, mas tão bela, que os peixinhos sob seus acordes, a orquestra na frente, entrariam em massa para as goelas dos tubarões sonhadores e possuídos pelos mais agradáveis pensamentos


Se os tubarões fossem homens, Também haveria uma religião no fundo do mar e os peixinhos aprenderiam que só na barriga dos tubarões é que começaria verdadeiramente a vida.


Ademais, se os tubarões fossem homens, também acabaria a igualdade que hoje existe entre os peixinhos, alguns deles obteriam cargos e seriam postos acima dos outros.


Os que fossem um pouquinho maiores poderiam inclusive comer os menores, isso só seria agradável aos tubarões pois eles mesmos obteriam assim constantemente maiores bocados para devorar e os peixinhos maiores que deteriam os cargos valeriam pela ordem entre os peixinhos menores para que estes chegassem a ser, professores, oficiais, engenheiro da construção de caixas e assim por diante. 


De fato, só haveria civilização no mar, se os tubarões fossem homens.
            

Histórias do Senhor Keuner


terça-feira, 4 de outubro de 2016

Vale a pena um compromisso militante?




Sabemos que os tempos são difíceis para que quer um mundo melhor sem injustiças ou exploração. Mas é tempo de avaliar os erros, apontar as falhas, ressaltar os acertos e recomeçar. Por isto o NORTE  achou oportuno publicar um artigo de alguém que diz que vale a pena ser militante. 


Boa leitura e coragem para recomeçar e continuar



Vale a pena um compromisso militante?


arcaryVALERIO ARCARY*  -  23/07/2016   Revista Espaço Acadêmico 


Recebo, de vez em quando, mensagens de jovens que não conheço, pessoalmente, e pelo Facebook me perguntam se ainda é possível a luta pelo socialismo. Percebo que têm aversão à injustiça e simpatia pela causa dos trabalhadores. Mas se interrogam sobre o sentido da dedicação à militância neste século XXI. Vale a pena? Quais são os maiores desafios e perigos? Escrevi este texto como se fosse uma mensagem pessoal de resposta.

Foi há quarenta anos que me uni à causa do socialismo. Como tantos outros, e após tantos outros, os anos me levaram a inocência. Não obstante, a esperança nunca diminuiu. Até hoje, aquela promessa, uma aposta suspensa no tempo, ou um pacto com o futuro permanece viva. Ainda que a espera seja longa.

Essa escolha ideológica e, em correspondência, o compromisso militante, não foi incomum entre os da minha geração, por muitas e variadas razões. Ela definiu a minha vida, e isso não é dizer pouco. Embora de extração social, relativamente, privilegiada, para o que era o Brasil dos anos cinquenta, porque filho da classe média assalariada com ensino médio – uma escolaridade elevada naqueles tempos – funcionários públicos de uma burocracia que se profissionalizava, em um Brasil que crescia e se urbanizava, minha vida foi atropelada na madrugada de um longínquo 25 de Abril, em Lisboa, nos idos de 1974.

Cheguei ao que poderíamos chamar de vida “consciente” na primeira metade dos anos 70: meia dúzia de anos depois de 1968, mas antes da ascensão de Reagan e Thatcher; depois dos Beatles, mas antes dos punks; depois das calças bocas de sino e antes dos paletós com ombreiras gigantes; em tempo de ver Pelé brilhar na Copa do México de 1970 e antes de Maradona; quinze anos depois da pílula e dez anos antes da epidemia da Aids. Se tivesse ficado no Brasil, teria Médici pela frente, mas estava em Portugal: o 25 de abril despertou a primavera dos meus dezessete anos. Em resumo: tudo considerado, tive sorte. Nasceu, então, uma fé de que o improvável era possível. Viver uma situação revolucionária quando iniciava a vida adulta foi acidental e maravilhoso. Aprendi que era possível.

Descobri o marxismo na resistência à ditadura de Marcelo Caetano em Portugal e, talvez por que fosse estrangeiro, me senti atraído, irresistivelmente, pelo internacionalismo. Associei-me aos “troskos”, à luta pela Quarta Internacional, uma das tendências mais críticas do marxismo, sofrendo forte influência política de exilados argentinos. A paixão desse marxismo de juventude foi sendo polida, e até corrigida sob muitas e variadas influências. Porém, permaneceu. Essas escolhas levaram a que tenha me engajado na construção da Convergência Socialista (1978/1994) e, desde então, do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado. Militei nos últimos quarenta anos sob a mesma bandeira: o internacionalismo marxista. Sou um trotskista. Isso requer uma explicação.

O termo marxista surgiu pela primeira vez em 1872, quando a disputa política esquentou dentro da Primeira Internacional, às vésperas do congresso de Hague. O adjetivo foi cunhado por Bakunin, em uma carta para a organização de sua fração, com referências muito mordazes e meio anti-semitas, ao “grupo judeu-teutônico” ou “marxista”, que “pretendia transformar a Internacional em uma espécie de Estado”. Parece certo que Marx sempre se sentiu pouco confortável com esse termo, mesmo quando ele foi utilizado, em correspondências, por militantes do seu círculo mais próximo, como Lafargue. Não porque considerasse impróprio identificar a sua tendência como uma corrente diferenciada. Nem porque quisesse diminuir o seu papel pessoal, mas porque temia as consequências da personalização de um conjunto de idéias, que pretendia ter ajudado a criar como um legado à luta e organização independente dos trabalhadores.[1]. Com o tempo, no entanto, depois da morte de Marx, o estigma se perdeu e os próprios seguidores de Marx passaram a utilizar o termo, e assim entrou na história. Não temos porque ignorá-lo.

O termo trotskista foi cunhado, também, pelos inimigos políticos da corrente que Trotsky passou a animar em meados dos anos vinte do século passado na luta contra a burocratização do Estado na URSS. Identificar-me como um trotskista quer dizer que considero que a obra de Trotsky permanece a melhor referência de continuidade do marxismo para compreender os impasses da luta contra o capitalismo. Sou, também, um morenista. O que quer dizer que sou um trotskista latino-americano que considera a obra de Nahuel Moreno uma inspiração: pela orientação em direção da classe trabalhadora, em especial a classe operária industrial, e pelo internacionalismo apaixonado.

Aprendi ao longo destes quarenta anos que a militância é, em primeiro lugar, um compromisso com um programa e a disposição de lutar pela sua defesa. Um programa é uma visão do mundo e um projeto. Mas só isso não basta para manter uma militância com tenacidade. É preciso reencontrar novas forças quando estamos angustiados pelo esgotamento. É preciso constância, até obstinação. Então, o que fazer?

Bom, se você quer mudar o mundo saiba que vai ser preciso estar disposto a mudar a si mesmo. A primeira qualidade de um socialista é a sua integridade moral. A decadência vergonhosa da direção e, também, do aparelho profissional do PT confirma que o mau caráter, a duplicidade e, portanto, a desonestidade são o endereço final da adaptação política. Não é possível uma vida decente sem indignação contra a exploração, sem repulsa contra todas as formas de opressão, sem revolta contra a dominação. É preciso honestidade de propósitos, inteireza de princípios, retidão de caráter, amor pela justiça, e sobriedade de conduta.

Acontece que a autotransformação é um processo ininterrupto de educação, tem idas e voltas. Avançamos e recuamos. Somos vulneráveis às pressões do tempo e do meio em que estamos inseridos. E as pressões de inércia reacionárias são muito poderosas, e ninguém está imune. Ninguém é tão firme, tão sólido, tão coerente o tempo todo. Somos imperfeitos. Temos defeitos, medos, vícios, limites. Prepare-se para tropeçar. Porque você vai cair, vai trair-se a si próprio, vai se decepcionar com os outros e, pior ainda, vai se frustrar consigo mesmo. Mais de uma vez vai ter que encontrar forças para levantar a cabeça, sacudir a poeira e dar a volta por cima. Vai ter que aprender a ter paciência com os outros.

E, claro, em algum momento vai se desmoralizar. Vai ter pena de si próprio, e vai pensar em desistir. Mas a autocompaixão, ou autocomiseração é má conselheira. Todos temos direito a um pouquinho de autocompaixão, desde que dediquemos o dobro do tema a aprender a rir de nós mesmos.

O que é preciso é empatia e compaixão com a dor daqueles que sofrem e lutam. Compaixão é a capacidade de nos colocarmos no lugar dos outros, e viver os medos e as esperanças dos trabalhadores, e de todos os oprimidos como se fossem as nossas. Empatia é a capacidade de sentir o que a maioria está sentindo.

Em segundo lugar, se você quer mudar o mundo saiba que vai ser preciso agir. Não adianta nada saber que o mundo é injusto e permanecer imobilizado, e ficar prostrado. A ação militante exige coragem. Sem a participação nas lutas dos trabalhadores, da juventude, das massas populares nada vai mudar. A militância é uma oferta, uma entrega, uma doação, uma aposta. Só que o ativismo não é somente uma doação de seu entusiasmo, seu tempo, ou até de seu dinheiro.

É uma mudança completa de atitude. Porque não adianta agir sem pensar. É preciso aprender a pensar. Para não agir errado. Nada vai mudar se nossa ação é irrefletida. É preciso compreender como o mundo funciona para transformá-lo. É preciso observar, estudar, instruir-se, e ponderar. Para poder agir a favor da mudança que é necessária é preciso estar disposto a aprender. Agir sem pensar é voluntarismo. Agir sem refletir é uma aventura. Investigar sem agir é diletância. Não se pode nunca perder a disposição de enfrentar o combate. Sim, a militância é um combate. Os militantes são os lutadores. Em qualquer luta há a possibilidade de vitórias e derrotas. É na ação que você recuperará as forças perdidas.

Em terceiro lugar, se você quer mudar o mundo saiba que vai ser necessário aprender a fazer a crítica e, mais difícil, a autocrítica. A militância anticapitalista é uma escola de ação e discussão. Isso exige organização. Aderir a uma organização é um ato voluntário, mas assim como ela deve garantir direitos, deve exigir deveres. Nenhuma organização é útil sem disciplina. Uma organização é um instrumento para aumentar a eficácia da luta. É uma ferramenta indispensável. Uma organização revolucionária está sempre cercada de inimigos. Ela é uma ameaça à ordem existente e precisa se proteger. A organização é uma fraternidade de lutadores. Ela deve ter fronteiras claras, precisa de muralhas. Se estiver demasiado exposta às pressões reacionárias das classes hostis aos trabalhadores será destruída. Se estiver demasiado fechada se habituará a agir dentro de sua “zona de conforto”, e será incapaz de se transformar, de se ligar aos trabalhadores, e permanecerá marginal na luta de classes.

Devemos ser conscientes que só serão úteis, estrategicamente, as organizações que controlamos. Esse é o papel da democracia revolucionária. Sem democracia interna não há controles. A democracia não é só o direito de fazer críticas. É o dever de dizer aquilo que pensamos. Mas é preciso aprender a criticar os outros. Quando criticamos algo que alguém fez, ou defendeu, é obrigatório ter respeito. E quem exerce o direito da crítica tem, também, o dever de ser capaz de fazer, quando for apropriado, a autocrítica.

Porque ninguém é infalível. Só que autocrítica tem que ser voluntária, senão é humilhação. Ninguém se diminui ao admitir os seus erros. Ao contrário, amadurece, se agiganta, se fortalece.

Em quarto lugar, se você quer mudar o mundo saiba que é preciso cultivar o desapego e o altruísmo. Nunca esquecer que militância socialista digna é abnegação, desprendimento, desinteresse e afinco. Tudo ao contrário da terrível realidade que nos cerca. Tudo ao contrário das ideias que são dominantes. Tudo ao contrário do comportamento individualista que prevalece. A doação que fazemos ao trabalharmos, voluntariamente, portanto, de graça pelo bem comum nos engrandece. As pressões sociais valorizam as recompensas imediatas, sejam materiais ou emocionais. Uma militância séria não irá melhorar a sua vida econômica. Ao contrário, vai exigir de você a disposição de, quem sabe, até perder oportunidades de prosperar. Mas tenha atenção porque a corrupção de um indivíduo não é feita somente com apelos à cobiça de dinheiro. A mesquinhez é, também, alimentada pelo apetite de sucesso e prestígio. A auréola de glória pode, também, corromper. O apetite de reconhecimento e a ambição de poder podem, também, nos perverter. Na militância não podem existir agendas ocultas. O impulso militante deve estar ao serviço da grandeza do projeto.

Isso significa aprender a dominar a tentação de vaidade, a arrogância, o orgulho. Finalmente, é preciso ter a maturidade de aceitar que uma militância séria exige a divisão de tarefas, porque se impõe a necessidade de especialistas. Mas isso não pode dar lugar à competição por cargos. Devemos admirar os despojados.

Por último, se você quer mudar o mundo saiba que a fraternidade deve começar aqui e agora. Há que valorizar a dimensão subjetiva da vida. Encontrar na luta a força de valores mais elevados. Eles são simples, porém, insubstituíveis. A solidariedade, a amizade e o amor. A confiança mútua que só se constrói com o respeito pela nossa diversidade, e pelo compromisso com a luta pela libertação dos explorados e oprimidos.

Tudo isso posto, vem o que é o mais importante. É preciso clareza estratégica, e disciplina política. Porque não adianta ter razão sozinho. Procure escolher com cuidado a organização à qual você vai se unir. Cuide de que ela abrace o internacionalismo que nos ensina que um povo que oprime outro não pode ser livre. Não é possível uma luta contra um inimigo mundial somente dentro de fronteiras nacionais. Procure uma organização com um programa marxista, e que seja coerente entre o que diz e o que faz. Tome cuidado em verificar se ela reivindica, honesta e humildemente, um legado que vem de longe. Mas atente para considerar se ela está disposta a tentar se reinventar. Porque novas realidades exigem novas explicações. Mas cuidado, não se deixe iludir por discursos que querem “reinventar a roda” e só têm como identidade a necessidade de afirmar que são o “novo”. Por último, saiba que tudo vai depender, finalmente, da união e força dos trabalhadores. Procure uma orientação na direção dos trabalhadores e suas lutas. Eles são os portadores da esperança.





* VALERIO ARCARY é professor do IF/SP (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia), e Doutor em História pela USP.

[1] Marx, talvez, até exagerasse na sua hostilidade em ter quaisquer relações com as organizações sectárias do seu tempo, e, pela mesma razão, nunca lhe ocorreu a idéia de construir uma seita “marxista”. Não porque ignorasse que as organizações com pouca influência pudessem cumprir um papel progressivo em determinadas situações, afinal, uma tendência política pode ser pequena, ou até “liliputeana”, por força das circunstâncias, e não pela sua vocação. Mas toda a preocupação de Marx, durante os anos de vida da Primeira Internacional, o período mais significativo de sua militância junto ao movimento operário, foi procurando uma aproximação das organizações de massas dos trabalhadores. A orientação na direção de uma organização independente de classe governava os seus esforços, nesse terreno. De qualquer maneira, não seria razoável considerar, ainda hoje, em vigência, os critérios que orientavam a política de organização do movimento operário do século passado. Sobre esse tema, vale a pena conferir um trecho de uma famosa carta de 1871: “A Internacional foi fundada para substituir as seitas socialistas ou semi-socialistas pela organização real da classe trabalhadora para a luta. Tanto os primeiros estatutos como o “Manifesto lnaugural” revelam isso à primeira vista. Por outra parte, a Internacional não teria podido afirmar-se se a marcha da história não tivesse se encarregado de acabar com o regime das seitas. O desenvolvimento do regime interno das seitas socialistas e do movimento dos trabalhadores estão em razão inversa. Quando as seitas são (historicamente) legítimas é porque a classe trabalhadora ainda não está madura para um desenvolvimento histónco independente. Assim que ela atinja essa maturidade todas as seitas são essencialmente reacionárias. No entanto, na história da Internacional se repetiu o que se dá sempre na história. O caduco busca uma nova acomodação e tenta fazer-se valer dentro das novas formas conquistadas. E a história da Internacional tem sido uma luta constante do Conselho Geral contra as seitas e as tentativas diletantes de se impôr dentro da Intcrnacional contra o movimento real da classe trabalhadora” (tradução nossa). MARX, Karl, Carta a Friedrich Bolte de 23 de Novembro de 1871, in La Internacional, México, Fondo de Cultura Económica, obras fundamentales, volume 17, 1988, p.614.



sábado, 10 de setembro de 2016

A conjuntura brasileira e o "diabo dos números"


Como diria Hans Magnus Eizensberger, é o "diabo do números". Observem como a depender do interesse de quem "dá" a notícia a verdade poderá ser transformada numa mentira e vice-versa: 


“... Desta forma, somente entre 2012 e 2014, foram retirados do caixa da previdência nada menos do que 184 bilhões de reais, dinheiro de sobra para pagar os 111 bilhões de reais de aumento dos gastos que o reajuste do salário mínimo impôs à previdência durante os sete anos considerados pela mídia( Emílio Gennnari)


Desta vez o NORTE volta ao tema da previdência mas pra você ficar atento as estatísticas para que elas não te enganem, melhor, para que os que comandam a economia, o governo e a imprensa não te convençam a aceitar ser sacrificado para salvá-los. Fique atento a mais um excelente artigo de Emílio Gennari.






Emilio Gennari – Educador Popular
E-mail: epcursos@gmail.com








A mágica dos números e os números da realidade

        
Em tempos de vacas magras e baixa popularidade dos governantes, é comum nos depararmos com discursos que ora comemoram qualquer sinal de melhora da economia, ora apresentam um futuro ameaçador caso não se concretizem reformas e ajustes que pioram as condições de vida dos trabalhadores.
         Para que possamos entender como a mágica dos números serve a estes propósitos, usaremos como exemplo a comparação entre os gastos públicos do Japão na área da saúde e os dispêndios públicos e privados do Brasil no mesmo setor. As estatísticas de 2013 revelam uma realidade intrigante: Japão e Brasil gastam em saúde cerca de 8% do Produto Interno Bruto (PIB). Com base nesta constatação, qualquer ministro, secretário ou candidato poderia alegar que, mais do que aumentar as verbas da saúde, o país precisa de um “choque de gestão” que melhore a utilização e a integração dos recursos existentes.
         Os números que nos igualam ao Japão parecem dar razão a esta posição. Mas, o que eles representam em termos reais? Para responder a esta pergunta, precisamos fazer algumas contas.
         Em 2013, o PIB do Japão foi de 4 trilhões e 920 bilhões de dólares, ao passo que, no mesmo ano, o PIB do Brasil ficou em 2 trilhões e 246 bilhões de dólares. Basta isso para percebermos que a fatia de 8% do montante de riquezas japonês é mais que o dobro da que corresponde ao PIB brasileiro. Se isso não bastasse, ninguém pode esquecer que a população nipônica da época somava cerca de 127 milhões de pessoas, enquanto a brasileira era de 201 milhões. Feitas as contas, temos que, em média, o gasto anual em saúde por habitante, no Japão, foi de 3.212 dólares, ao passo que, no Brasil, foi de apenas 415 dólares na soma entre recursos públicos e privados.
         Se ninguém mente ao afirmar que, pelos critérios utilizados, os dois países investem em saúde a mesma proporção do PIB, também não dá pra negar que a fatia japonesa do gasto por habitante é quase 8 vezes maior do que a nossa, o que possibilita um atendimento bem melhor. Por isso, dizemos que uma coisa é a mágica dos números e outra, bem diferente, a realidade que eles mostram quando se resgata o que é desconsiderado para que as maiorias não percebam o verdadeiro alcance do que está sendo proposto.
         Do exemplo para a realidade, queremos trazer à tona duas situações que marcaram os noticiários recentes a fim de mostrar como ao focar alguns números reais da economia é possível fazer passar despercebidos aspectos fundamentais da realidade e como, ao ampliar o olhar sobre a mesma aparece um quadro bem diferente do imaginado.
         O primeiro caso diz respeito ao desempenho da indústria brasileira. Ao apresentar os resultados de junho, os destaques dos noticiários diziam que o setor começava a reverter a queda dos períodos anteriores e que o crescimento da produção em 1,1% sobre maio sinalizava a confiança que as forças do mercado depositavam no governo Temer. Os elementos incômodos, citados de passagem ou esquecidos, podem ser resumidos nos pontos que seguem:
1.    Em que se baseia o suposto estímulo produzido pelo novo governo se, até o momento, o que ele anuncia pela manhã é corrigido à tarde e negado à noite? No fato de que estes balões de ensaio se transformarão em medidas amargas cujas formulações finais, reduzirão a tensão social esperada em resposta aos estragos produzidos? Concretamente, o que o governo ofereceu à indústria de meados de maio ao final de junho além de vagas promessas futuras? Se a elite considerava o déficit público do governo Dilma, estimado em 96 bilhões de reais para 2016, como gerador de desconfiança nos mercados a ponto de inviabilizar os investimentos, porque os 170 bilhões de reais de déficit do Temer deveriam tranquilizar os mesmos mercados à medida que este aumento não guarda relação com nenhuma política de investimento do Estado a fim de estimular a economia e fazer o país crescer?
2.    A comemoração do resultado positivo de junho ofuscou o fato de que, em relação ao mesmo mês de 2015, a produção do setor havia caído 6% e que, na comparação entre o primeiro semestre de 2016 e o mesmo período do ano anterior, a redução subia a 9,8%. Se isso não bastasse, no mesmo mês da suposta virada, o Ministério do Trabalho informava que a indústria havia eliminado nada menos do que 31.102 postos de trabalho com carteira assinada, uma redução de 0,41% ante maio deste ano. È diante desta catástrofe que o número positivo da produção industrial de junho deve ser lido e relativizado. Que elementos indicam que a indústria tocou o fundo do poço e agora vai voltar a subir? No que se baseia esta afirmação se os investimentos e o consumo continuam caindo? No fato de que, após as seguidas quedas da produção, o termo de comparação é tão baixo que basta pouquíssimo para que apareça um resultado positivo? Mais uma vez, temos muitas perguntas e nenhuma resposta fundamentada por parte da mídia e do governo.
         Estas reflexões ajudam a perceber que, como no caso da saúde, a mágica dos números constrói uma miragem que traz alívio e esperança, enquanto mostra Temer como alguém que, à diferença da Dilma, é capaz de encontrar saídas viáveis. O problema de qualquer miragem é que ela se desfaz quando nos aproximamos com um olhar mais amplo sobre a realidade.
         O segundo exemplo guarda relação com as justificativas que buscam fazer com que a reforma da previdência seja tida como uma tarefa inadiável também pelo povo simples. Em termos de números, nos deparamos com reflexões que assustam quem sequer consegue imaginar o que é um bilhão de reais. De acordo com os dados publicados pela mídia em meados de agosto, a política de reajuste do salário mínimo entre 2008 e 2014 custou aos cofres públicos nada menos do que 179 bilhões e 100 milhões de reais, em valores já reajustados pela inflação, sendo que o montante superaria os 200 bilhões de reais se incluíssemos o ano de 2015. No período considerado, o impacto dos reajustes do salário mínimo (corrigido pela inflação e o crescimento do PIB do período anterior) na previdência social foi de 111 bilhões de reais, ou seja, para cada R$ 1,00 de elevação do mínimo, a despesa anual da previdência aumentava em 267 milhões e 500 mil reais em valores de hoje; números que, de acordo com os analistas de plantão, provariam a insustentabilidade desse tipo de gasto.
         Sorrateiramente, esta “defesa” dos cofres públicos contra o avanço do suposto déficit da Previdência Social aponta em duas direções:
1.    A urgência de rever a política de reajuste do salário mínimo antes de 2017, quando o eventual crescimento do PIB entraria no reajuste de 2019 junto à inflação do período;
2.    A necessidade de desvincular do salário mínimo os benefícios pagos pela previdência, permitindo que sejam bem menores do que o próprio salário mínimo nacional. Aprovada a emenda constitucional que reduz a elevação dos gastos públicos ao limite máximo da inflação apurada no ano anterior, o valor a ser distribuído pelo sistema previdenciário passaria por um crescente encolhimento. Isso se deve à relação entre o aumento anual do número de benefícios pagos e o montante final destinado a este fim que, ao não poder superar a inflação do ano anterior, implicaria numa reposição menor do aumento do custo de vida nos valores a serem recebidos pelos beneficiários.
         Na análise divulgada em 5 de julho, mostramos que a previdência não seria deficitária se o pagamento das contribuições empresariais seguisse as normas legais, mesmo desconsiderando os preceitos que, como na ampla maioria dos países do planeta, incluem outras contribuições para compor o caixa da seguridade social. Agora, queremos voltar nossas atenções para um mecanismo chamado Desvinculação das Receitas da União (DRU), pelo qual os fundos arrecadados para um determinado fim podiam ser usados em outras áreas pelo Executivo federal até 20% de todas as receitas. Ou seja, ao mesmo tempo em que a legislação determinava o que ia compor o caixa da seguridade social, a DRU possibilitava que 20% de todos os seus recursos tivessem outro destino. Desta forma, somente entre 2012 e 2014, foram retirados do caixa da previdência nada menos do que 184 bilhões de reais, dinheiro de sobra para pagar os 111 bilhões de reais de aumento dos gastos que o reajuste do salário mínimo impôs à previdência durante os sete anos considerados pela mídia.
         Se isso não bastasse, acaba de ser aprovada pelo Senado a Proposta de Emenda Constitucional que não só prorroga a DRU até 2023, como amplia de 20% para 30% o total de recursos que podem ser realocados pelo Executivo federal. Com a sanção desta medida, o caixa da seguridade social pode ficar com 120 bilhões de reais a menos já em 2017. Se é verdade que, a cada R$1,00 de reajuste do salário mínimo, temos um aumento anual dos gastos previdenciários de 267 milhões e 500 mil reais, é também verdade que os 120 bilhões de reais da DRU de 2017 seriam suficientes para elevar cada benefício, em média, em 448 reais.
         Mas isso não é tudo. Com reajustes cada vez mais reduzidos, os valores futuros a serem pagos pela previdência podem condenar a maioria dos municípios a uma situação falimentar e impactar negativamente as possibilidades de crescimento do país. Atualmente, em 3.875 dos 5.566 municípios brasileiros, o pagamento dos benefícios previdenciários supera os repasses do Fundo de Participação dos Municípios; e, em 4.589, 82% do total dos municípios, o valor total destes benefícios ultrapassa a arrecadação municipal e é uma das peças-chave que alimenta o comércio e as demais atividades econômicas locais. Encolher progressivamente o montante pago, além de socialmente injusto, significa fazer com que uma parcela crescente de municípios corra o risco de entrar em bancarrota.

         No terreno dos números da realidade, não faltam aspectos preocupantes, parte dos quais comentamos a seguir:
1.    De acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED), do Ministério do Trabalho, de janeiro a julho deste ano foram fechadas 623.520 vagas com registro em carteira. Por sua vez, os levantamentos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que, no segundo trimestre deste ano, o desemprego atingiu 11,3% da população economicamente ativa ante 8,3% no mesmo período de 2015. São 3 milhões e 200 mil pessoas a mais à procura de emprego em relação a 2015.
Graças a esta catástrofe, o número de ocupados que recebem até meio salário mínimo passou de 9 milhões e 23 mil, em 2015, para 10 milhões e 300 mil em março deste ano, sendo que a parcela até 25% do salário mínimo saltou de 4 milhões e 400 mil trabalhadores para 5 milhões e 500 mil. O arrocho produzido pelo desemprego faz com que a capacidade de compra dos salários feche o primeiro semestre deste ano com uma queda de 4,2% sobre o mesmo período do ano passado, depois de descontada a inflação, e que o total de salários pagos na economia tenha encolhido 5,1% na mesma base de comparação. Mais assustador ainda é saber que, segundo os especialistas, a taxa de desemprego deve continuar avançando, pelo menos, até meados de 2017.
2.    Os números do desemprego são apenas o reflexo da freada na atividade econômica dos últimos semestres. Aqui, gostaríamos de citar a situação da indústria automobilística, do comércio varejista e da construção civil. De janeiro a julho deste ano, a produção de veículos nas montadoras caiu 20,4%, em relação aos primeiros sete meses de 2015, e a ociosidade do seu parque industrial está na casa dos 70%. Atualmente, a cadeia produtiva deste setor emprega 126.800 pessoas, 6,6% a menos do que em julho de 2015 e 30.100 trabalhadores a menos em relação a três anos antes. Isso sem contar que, no momento, temos 26.000 trabalhadores do setor em sistemas de redução da jornada e salários ou de suspensão temporária do contrato de trabalho. Esses números tendem a piorar, à medida que a queda das vendas no mercado interno representa um volume de veículos bem maior do que o pequeno aumento que vem sendo registrado nas exportações.
No varejo, a queda nas vendas tem levado muitas lojas a fechar as portas. De acordo com a Confederação Nacional do Comércio, entre janeiro de 2015 e junho de 2016, descontado o número de lojas abertas no período, 166.900 estabelecimentos comerciais fecharam as portas. Só no primeiro semestre de 2016, foram 67.900 lojas a encerrar as atividades (ante 99.000 ao longo de todo o ano passado), uma média de 377 por dia.
Na construção civil, a redução das atividades entre outubro de 2014 (mês em que inicia a recessão do setor) e julho deste ano, levou à eliminação de 773.124 vagas. No momento, este grande empregador de força de trabalho está funcionando com 57% de sua capacidade de operação e os passos de retomada que vêm ensaiando nos dois últimos meses são pequenos demais para tirá-lo do atoleiro em que se encontra.
Só no primeiro semestre deste ano, as dificuldades enfrentadas nos vários setores da economia elevaram em 6,8% o nível de inadimplência das empresas, obrigando os quatro maiores bancos do país (Banco do Brasil, Itaú, Caixa Econômica Federal e Bradesco) a ampliar em 54 bilhões de reais suas provisões para créditos duvidosos (uma espécie de seguro contra calotes) que, ao todo, somam agora 144 bilhões de reais. Mau sinal para uma economia que anda em marcha ré.
3.    Em julho, a arrecadação federal deu mais um susto ao registrar o pior resultado para o mês desde 2010. Com mais este recuo, nos primeiros sete meses de 2016, entraram no caixa do governo federal apenas 724 bilhões e 673 milhões de reais, 7,11% a menos em relação ao mesmo período do ano passado, depois de descontada a inflação. À medida que a recessão e a manutenção de altos patamares de renúncia fiscal fazem cair a arrecadação em todos os níveis, se reduz também a quantia final sobre a qual incidem os cálculos da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) para o pagamento do funcionalismo. De um lado, o arrocho a ser promovido pela não recomposição da inflação eleva as tensões entre governos e sindicatos do setor, mas, de outro, torna plausível a justificativa legal pela qual se faz necessário cortar servidores e direitos a fim de não superar o teto estabelecido pela LRF, numa queda de braço onde aumentam as vantagens dos governos em relação à maioria dos servidores.
Ao mesmo tempo, a necessidade de o governo federal não superar o teto estabelecido pelo déficit público, diante de uma arrecadação que não dá sinais de melhora, faz aparecer novas chances de ganhos para a elite rentista do país. Há semanas, o governo federal vem discutindo a possibilidade de securitizar a dívida que os empresários têm com a União como caminho rápido de fazer caixa. Os debates veiculados pela mídia têm deixado escapar dados importantes. Para ajudar na compreensão, transformaremos a precisão dos elementos técnicos num exemplo mais acessível.
Imagine a chamada “dívida ativa da União” como um bloco de promissórias assinadas pelos empresários junto ao governo federal que, em junho deste ano, somavam, 1 trilhão e 580 bilhões de reais. Desse total, o governo reconhece ter chances de receber em torno de 95 bilhões de reais que correspondem aos pagamentos parcelados das promissórias negociadas até junho deste ano. O 1 trilhão e 485 bilhões de reais restantes é admitido como perda pelo próprio Tesouro Nacional.
Mantido como está, o recebimento dos 95 bilhões de reais levaria tempo, algo que o governo não tem face às suas necessidades de caixa e às dificuldades de elevar os impostos. Sabendo que o montante considerado perdido é usado pelo mercado para elevar a margem de risco que cerca os pagamentos futuros já acertados, o governo Temer estuda vender estas promissórias pela metade do preço, o que implica em abrir mão de 47 bilhões e 500 milhões de reais que ficariam com os investidores para protegê-los contra novos possíveis calotes. Realizada a venda das promissórias, a proposta em pauta é de usar 70% do total recebido para amortizar a dívida pública e destinar os 30% restantes aos investimentos.
Assim, os especuladores do mercado ganhariam nas duas pontas: de um lado, graças ao desconto praticado, e, de outro, pela garantia de pagamento dos juros da dívida interna. E isso sem que ninguém pergunte como foi possível alimentar tamanha dívida dos patrões com o governo sem cobranças, garantias ou contrapartidas à altura da situação e aceitar pacatamente que, com a securitização, será possível receber apenas 3% do total devido.
4.    Em tempos de crescimento do desemprego e queda dos salários, falar em condições de trabalho pode soar a luxo desnecessário, mas um dado do Portal da Transparência chamou a nossa atenção. Em 2015, as despesas do Estado com a Secretaria de Inspeção do Trabalho (que realiza a fiscalização do trabalho análogo à escravidão) somaram 2 milhões e 900 mil reais, utilizados para montar 143 operações que resgataram 1010 pessoas de uma situação de trabalho desumana. Até o dia 18 de julho deste ano, esta secretaria havia recebido do governo apenas 68.800 reais, o que corresponde a 5% do total de repasses de 2015, usados em 33 operações que resgataram 188 trabalhadores.
Por si só, o fato de os agentes encarregados de desbaratar processos de trabalho em condições próximas à escravidão poderem contar com valores tão irrisórios, como os recebidos em 2015, já deveria ser motivo de vergonha e de reflexão profunda da sociedade. Mas, quando a esta realidade acrescentamos uma diminuição brutal das verbas é como se o governo sinalizasse que, daqui em diante, não vai haver fiscalização, o que pode gerar situações particularmente graves, sobretudo nas regiões mais distantes dos grandes centros onde os custos das operações de resgate são altos. À elite rentista, bilhões de reais a serem ganhos sem esforço. Aos que deveriam se encarregar de resgatar os trabalhadores de uma situação análoga à escravidão...tostões.

         Para encerrar nosso breve passeio pela realidade do país gostaríamos de partilhar uma pergunta para pensar os possíveis desdobramentos da conjuntura: Concretizado o impeachment da presidente Dilma, até onde vai a paciência do mercado com a demora do governo Temer em realizar o que prometeu no plano “uma ponte para o futuro”, sobre o qual falávamos na análise divulgada em maio deste ano?
         Passados pouco mais de três meses de governo interino, a lua de mel com os agentes dos mercados refletiu mais a sintonia entre o diagnóstico e o reconhecimento da necessidade de reformas, presentes nas posições de todos os atores envolvidos no processo de impeachment, do que os passos concretos em direção à sua viabilização. Sobraram discursos e faltou prática, sobretudo no âmbito da presidência que empurra para o Congresso o ônus de aprovar as medidas amargas desejadas pelas elites e acende uma vela a Deus e outra ao diabo para proporcionar a sua própria sustentação.
         Cientes do desgaste político a que seriam submetidos, os parlamentares se encarregaram de moldar e esvaziar aspectos essenciais das propostas do Executivo e agora pedem bem mais em troca de votos favoráveis. Foi assim com a renegociação das dívidas dos Estados e não será diferente em relação aos ajustes propostos nas contas públicas.
         Entrar no terreno acidentado da reforma trabalhista e previdenciária às vésperas de uma eleição municipal é algo que nenhum partido da base aliada deseja, pelo menos até encerrar a votação do segundo turno. Concretizado o impeachment, ganha força a ideia de colocar a agenda em compasso de espera, resolvendo e encaminhando questões em relação às quais não se esperam manifestações sociais contrárias, limpando a sombra da corrupção projetada por Eduardo Cunha no Congresso Nacional, alinhavando as medidas legais da participação Pública e Privada para os Investimentos e consolidando o terreno para a venda de ativos das estatais. Com isso, digamos que daria para manter a paciência dos mercados em banho-maria até o final de 2016. Temer não deve conseguir virar o ano sem ser cobrado pelo gradualismo e a lentidão das reformas em nome das quais os agentes econômicos o levaram ao comando da administração do país. Ajustar o ritmo da política ao das demandas do mercado será uma batata cada vez mais quente nas mãos da equipe econômica, ainda mais se os futuros desdobramentos das delações premiadas forem usados para assá-la a fogo alto.
         O jeito é continuarmos de olhos nos números da economia que ajudam os trabalhadores a visualizar o movimento da realidade, a relacioná-los com os interesses de classe que estão em jogo e a plantar sementes de rebeldia em seu meio.


         Brasil. 26 de agosto de 2016.