quinta-feira, 6 de julho de 2017

O Pulso ainda Pulsa 5: Quando Trabalhar é Adoecer - Carne, Osso e Depressão.



Veja como Joesley e seus colegas do Agronegócio enriquecem as custas do adoecimento do

trabalhador. Aproveite e lembre-se da Indústria Farmacêutica e das redes privadas de saúde e

previdência, o sistema te adoece no trabalho te explorando e depois aumenta a riqueza com a sua

doença e ainda te culpa por isto.  Veja o que acontece com os trabalhadores dos frigoríficos e da

indústria da carne.


RECEITA DO NORTE:



:                                         1.  Informe-se.


                                          2.  A culpa nunca é sua


                                          3.  Sozinho não dá.


                                          4.  Junte-se aos que se sentem fracos como você e será uma grande força.


                                          5. Comece a caminhar com amigos pelo menos 3 vezes por semana.


                                          6 . Converse mais com seus colegas de trabalho e vizinhos.


                                          7.   Faça novos amigos sempre.

                                     



sexta-feira, 23 de junho de 2017

O Pulso Ainda Pulsa 4: Quando trabalhar é Adoecer (Hepatopatia Crônica Tóxica) - o Lucro é que interessa (Agronegócio, Agrotóxico e Morte).


Agrotóxicos e doenças


Você que se escandalizou com as denúncias de Joesley sobre a compra dos presidentes, governadores, deputados e senadores, veja como A JBS, (Friboi), Brasil Foods e toda a indústria de carne e derivados e todo agronegócio consegue dinheiro  para esta “façanha”, destruindo a natureza e provocando danos muito maiores a saúde dos indivíduos  e a saúde pública. A indústria química agradece. Saúde não tem pressa o lucro é que interessa.

Se nas indústrias, Bancos, supermercados, Escolas, hospitais, Estradas, no mar e no ar, o sofrimento do trabalhador e seu adoecimento é transformado em lucro para os donos das empresas, no agronegócio não é diferente. Vejam os danos causados pelos agrotóxicos  aos trabalhadores do campo.



Artigo relaciona morte de trabalhadores por agrotóxicos e sua
Subnotificação


por
Graça Portela & Raíza Tourinho


07/12/2015

Ao analisar os óbitos decorrentes de intoxicações ocupacionais por agrotóxicos, registrados pelo Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde, a pesquisadora do Icict e coordenadora do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas - Sinitox, Rosany Bochner, trouxe à tona um problema grave de saúde pública: a subnotificação ou notificação irregular dos óbitos causados por esses agravos, fato que acaba dificultando não só as pesquisas como também as notificações judiciais contra as empresas produtoras de agrotóxicos.

É interessante notar que a intoxicação por agrotóxico não é considerada um agravo de notificação compulsória no Brasil, embora seja considerada de interesse nacional e notificada pelas unidades de saúde no Sinan (conforme Portaria nº 777/GM, 28/04/2014). O próprio Ministério da Saúde estima que a subnotificação faz com que, para cada evento de intoxicação por agrotóxico notificado, há outros 50 não notificados.

Segundo dados do Sinitox, foram registrados, no período de 2007 a 2011, 26.385 casos de intoxicações por agrotóxicos de uso agrícola, 13.922 por agrotóxicos de uso doméstico, 5.216 por produtos veterinários e 15.191 por raticidas. Os agrotóxicos são o terceiro grupo responsável pelas intoxicações, com 11,8% dos casos. Antecedido pelos medicamentos (28,3%) e animais peçonhentos (23,7%).

Os óbitos causados por agrotóxicos de uso agrícola, de acordo com o estudo feito pela coordenadora do Sinitox, atingiram 863 pessoas (39,4%), os de uso doméstico 29 casos (1,3%), os produtos veterinários corresponderam a 22 ocorrências (1,0%) e os raticidas por 138 óbitos (6,3%). Segundo levantamento feito por Rosany Bochner, desses óbitos, apenas 14 (1,3%) foram registrados como ocupacionais.

Rosany Bochner analisou 33 óbitos registrados no Brasil pelo SIM, no período de 2008 a 2012, levantando variantes como perfil socioeconômico; ano de óbito, estado e local do acidente, causas associadas aos óbitos decorrentes de intoxicações, dentre outros pontos. Ela também cruzou os dados com as informações do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN)/MS e dados do próprio Sinitox.

O que é a exposição ocupacional a agrotóxicos

A exposição ocupacional a agrotóxicos atinge em especial agricultores, que podem ser afetados pela manipulação direta ou por meio de armazenamento inadequado, reaproveitamento de embalagens, roupas contaminadas ou contaminação da água. Contudo, trabalhadores da agricultura e pecuária, de saúde pública, de firmas desintetizadoras, de transporte e comércio dos agrotóxicos, de indústrias de formulação de agrotóxicos são os principais profissionais sujeitos à exposição ocupacional a agroquímicos.

Segundo o relatório divulgado pelo Inca - Vigilância do Câncer relacionado ao Trabalho e ao Ambiente -, a exposição aos agrotóxicos pode ocorrer “pelas vias digestiva, respiratória, dérmica ou por contato ocular”, podendo determinar quadros de intoxicação aguda (quando os sintomas surgem rapidamente, algumas horas após a exposição excessiva e por curto período aos produtos tóxicos), subaguda (ocorre por exposição moderada ou pequena a esses produtos, e tem surgimento mais lento, com sintomas subjetivos e vagos, tais como dor de cabeça, fraqueza, mal-estar, dor de estômago e sonolência, dentre outros) e crônica (quando o surgimento dos sintomas “é tardio, podendo levar meses ou anos, acarretando por vezes danos irreversíveis, como distúrbios neurológicos e câncer”).

Subnotificação e evento sentinela

E é esse um dos casos analisados pela coordenadora do Sinitox em seu artigo – o de VMS, residente na comunidade de Cidade Alta, no município de Limoeiro do Norte, na Chapada do Apodi - Ceará. Ele trabalhava para uma multinacional na função de trabalhador agrícola, tendo sido transferido para o almoxarifado químico, onde trabalhava como auxiliar no preparo da solução de agrotóxicos para borrifo na lavoura de abacaxi. Mesmo utilizando equipamentos de proteção individual (EPI), a partir de 2008 VMS passou a sentir fortes dores de cabeça, febre, falta de apetite, olhos amarelados e inchaço no abdômen. Em agosto desse ano, houve piora em seu quadro clínico, obrigando-o a afastar-se do serviço. Em novembro, faleceu, aos 31 anos.
Se para alguns estava clara a intoxicação por agrotóxicos, para a Justiça havia a necessidade de se provar que de fato a intoxicação foi o que levou VMS a morte. As evidências vieram dos estudos feitos pela pesquisadora e professora do Departamento de Saúde Comunitária, da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFCE), Raquel Rigotto, que junto com a sua equipe multidisciplinar, comprovou que todos os problemas de saúde do paciente foram ocasionados pela exposição ocupacional aos agrotóxicos. Veja o vídeo abaixo.

Em 2013, a Justiça reconheceu que a morte de VMS foi motivada “pelo ambiente ocupacional”, ou seja, pelo trabalho com substâncias agrotóxicas. Para Rosany Bochner, “chama a atenção o fato de que dentre as causas apresentadas [na certidão de óbito], os agrotóxicos não foram sequer mencionados, implicando na fragilidade do SIM, em subsidiar as análises dos impactos dos agrotóxicos na saúde humana”. Em seu artigo, Rosany Bochner ressalta que “segundo o sistema, VMS seria mais uma vítima do agronegócio, que morre sem deixar vestígios da relação causal entre a exposição a agrotóxicos e o agravo à saúde”.

Paulo Borges, coordenador do Programa de Pós-Graduação em Informação e Comunicação em Saúde (PPGICS/Icict), que pesquisa os sistemas de informações, analisa que o preenchimento inadequado – o subregistro, ou seja, casos de doenças e/ou óbitos que não são registrados é um dos principais problemas dos SIS (Sistemas de Informações) e que isto “pode gerar informações subestimadas, não condizentes com a realidade local”.

Borges também alerta para outro fator preocupante que é o fato dos formulários/declarações que alimentam os SIS não serem completamente preenchidos, deixando de fora informações relevantes para a vigilância epidemiológica, o que se reflete inclusive nas doenças ocupacionais: “A intencionalidade e a exposição ocupacional relacionada aos óbitos e algumas doenças também costumam ser subregistradas, pois nem sempre o profissional de saúde que preenche o documento possui esta informação ou tem clareza sobre a importância da mesma para as ações de prevenção de novas ocorrências”, afirma. Ele acredita que o fato dos profissionais de saúde estarem muito envolvidos com a assistência aos pacientes, não permite que eles observem a importância que o registro adequado das informações tem para a vigilância e prevenção de novas ocorrências.

Para ele, uma das formas de se reduzir o problema é a conscientização do profissional de saúde sobre a necessidade do preenchimento correto: “É claro que as questões tecnológicas relacionadas as interfaces, a usabilidade e a transmissão dos dados podem ser melhoradas, mas creio que o mais importante é conscientizar os profissionais de saúde sobre a importância destes sistemas para a saúde das populações”, finaliza.

“Vítimas escondidas”

Ao fazer a correlação entre as mortes registradas no SIM e a real causa desses óbitos, Rosany Bochner traz à tona uma discussão que pode trazer impactos relevantes não só para o Sistema Único de Saúde, como para a saúde do trabalhador: “Ao lidar com óbitos decorrentes de intoxicações ocupacionais por agrotóxicos, estamos na presença de eventos raros, dificilmente notificados, mas que aportam uma enormidade de significados e sentidos, mantendo atrás de si diversas outras vítimas de um sistema perverso”, afirma ela, em seu artigo.

Em sua busca por “vítimas escondidas”, Rosany Bochner tenta mostrar que mais do que números, esses óbitos representam pessoas que estão sendo expostas diariamente em seus trabalhos com agrotóxicos. No lugar de VMS, por exemplo, é bem possível que exista outro trabalhador, submetido a condições semelhantes que causaram a morte do primeiro. Assim, o artigo propõe “utilizar cada um desses óbitos descritos nesse trabalho como um evento sentinela, a fim de incentivar e instrumentalizar as vigilâncias dos municípios a atuar na fiscalização das condições de trabalho e, se possível, realizar busca ativa de casos de intoxicação crônica por agrotóxicos”. Ou seja, a partir de informações de uma intoxicação (o evento sentinela) a Vigilância deve buscar no local de ocorrência (busca ativa) casos semelhantes. Como ela mesmo afirma: “Esse trabalho é um início para um novo modelo de vigilância e captação de dados”.

Esta reportagem marca o início da série “Agrotóxicos: a história por trás dos números”, realizada pelo Icict, com matérias sobre uso de agrotóxicos no Brasil. 


A controvérsia sobre o uso seguro de agrotóxicos

Graça Portela & Raíza Tourinho
,
13/01/2016
A discussão sobre a notificação compulsória nos casos de intoxicação por agrotóxicos ganha mais força quando se debate se existe ou não segurança para a produção, manuseio e aplicação dos agrotóxicos, ou até mesmo no consumo de alimentos ingeridos pela população.

Para o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal – Sindiveg, sim, existe segurança. Segundo a vice-presidente executiva do Sindicato, Silvia Fagnani, “se usado de forma correta no campo, a aplicação de agroquímicos é segura”. Ela cita que os produtos, antes de serem registrados e liberados para a comercialização, são submetidos à avaliação agronômica, ambiental e toxicológica dos ministérios da Agricultura, do Meio Ambiente e da Saúde, por meio da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

De fato, a Anvisa coordena as ações na área de toxicologia no Sistema Nacional de Vigilância Sanitária, do Ministério da Saúde, regulamentando, analisando, controlando e fiscalizando produtos e serviços que envolvam riscos à saúde – agrotóxicos, componentes e afins, além de outras substâncias químicas de interesse toxicológico. Segundo informações do site da Agência, ela também “realiza a avaliação toxicológica para fins de registro dos agrotóxicos, a reavaliação de moléculas já registradas e normatiza e elabora regulamentos técnicos e monografias dos ingredientes ativos dos agrotóxicos. Além disso, coordena o Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos nos Alimentos (PARA) e a Rede Nacional de Centros de Informação Toxicológica (Renaciat) e promove capacitações em toxicologia”.

Em dezembro de 2015, por exemplo, a Anvisa baniu o ingrediente ativo Parationa Metílica, substância associada ao câncer, desregulação endócrina, além de alterações nos genes (mutagênico) e no cérebro (neurotóxico). A decisão foi baseada nos resultados da consulta pública e às evidências científicas que “demonstram a extrema toxicidade deste ingrediente ativo”, segundo a nota da Agência. A Fiocruz também contribuiu com um parecer técnico para subsidiar a proposição de regulamento técnico para a substância.

O registro de agrotóxicos no Brasil não tem prazo de validade, ao contrário do que ocorre na União Europeia (10 anos) e em países como Estados Unidos (15 anos), Japão (3 anos) e Uruguai (4 anos). O banimento só foi possível graças a RDC 10/2008, que estabeleceu o processo de reavaliação de 14 substâncias já proibidas em outros países – dos 45 países pesquisados, a Parationa não pode ser comercializada em 34 e nos demais é utilizada com severas restrições. A reavaliação foi iniciada em 2008, mas ainda está longe de acabar. Este é o oitavo produto cuja a análise é concluída, e o sexto a ser banido (os outros cinco são Cihexatina, Endossulfam, Forato, Metamidofós e Triclorfom). Os dois restantes foram mantidos no mercado, mas com restrições de uso (Acefato e Fosmete). Atualmente, uma substância está em consulta pública (Carbofurano) e outras cinco com o processo em andamento (Lactofem, Abamectina, Tiram, Paraquate e Glifosato, sendo o último o mais usado no Brasil). Mas, e o agricultor que manipula o produto químico, sabe o que está fazendo?

Capacitação no uso

Silvia Fagnani explica que a indústria mantém uma preocupação com aqueles que manipulam os produtos químicos: “As empresas do setor capacitaram nos últimos quinze anos, entre 700 mil a 1 milhão de pessoas/por ano. Só no ano de 2011, foram mais de 3 milhões de pessoas treinadas”, afirma.

E há informação adequada sobre as substâncias que compõem os agrotóxicos em seus rótulos e seus efeitos colaterais? Com a experiência de quem trabalhou anos com a análise de agrotóxicos, o ex-gerente de Toxicologia da Anvisa e pesquisador do Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (CESTEH), da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP)/Fiocruz Luiz Claudio Meirelles afirma, sem titubear: “Não. Tanto para o usuário do produto como para o profissional de saúde. Existe uma linguagem técnica estabelecida para apresentação substâncias químicas que nem sempre é apropriada por quem vai usar o produto ou intervir nos casos de intoxicação. Insuficiência de dados sobre a toxicidade, pictogramas de difícil interpretação, doses e preparações de complicado entendimento são exemplos onde técnicas adequadas de comunicação são pouco ou nunca empregadas”.

A linguagem técnica é um desafio especialmente se considerarmos o perfil do trabalhador rural. De acordo com o “Dossiê Abrasco: uma alerta sobre os impactos dos agrotóxicos na saúde”, uma compilação em 600 páginas de diversos estudos sobre a questão, os trabalhadores rurais no Brasil têm, em geral, baixo nível de escolaridade; muitas vezes utilizam a aplicação intensiva de agrotóxicos como principal medida de controle de pragas; passaram por pouco ou nenhum treinamento para a utilização de agrotóxicos; desconhecem muitas situações de risco e não usam equipamentos de proteção coletiva e individual para a manipulação e aplicação dos produtos. Ao traçar o perfil socioeconômico das vítimas de óbito ocupacional por agrotóxicos, Rosany Bochner não encontrou um cenário diferente: há predomínio do sexo masculino (91%), idade entre 40 a 59 anos (55%), raça/cor branca (58%), baixa escolaridade com menos de três anos de instrução (45%), estado civil dividido entre solteiros (39%) e casados (33%).

No documentário Chapada do Apodi – vida e morte, uma produção da VideoSaúde Distribuidora da Fiocruz e a Articulação Nacional de Agroecologia – ANA, duas gerações de agricultores que lidam com agrotóxicos, José Ernilton e Francisco Jerimar, falam sobre o seu trabalho. E Raquel Rigotto, pesquisadora da Universidade Federal do Ceará - UFCE,  fala da pesquisa que fez nas cidades no entorno de Limoeiro do Norte, no Ceará. Assista o vídeo abaixo:

Informação & realidade

Apesar do esforço da indústria de agrotóxicos em informar e capacitar agricultores sobre o uso de agrotóxicos, a realidade é bem diferente. Em sua dissertação de mestrado na Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, defendida em 2014, intitulada “O agricultor familiar e o uso (in)seguro de agrotóxicos no município de Lavras, MG”, o farmacêutico Pedro de Abreu analisou o caso da cidade de Lavras, no interior de Minas Gerais, considerando o contexto socioeconômico em que a maioria dos pequenos produtores rurais do município se encontra, e os resultados foram preocupantes.
Ele entrevistou 136 trabalhadores rurais, oriundos de 81 unidades de produção familiar em 19 comunidades. O que ele constatou é que, por mais que esforcem, os produtores não possuem nem conhecimento nem recursos para seguir as normas preconizadas pela Lei dos Agrotóxicos ou pelos manuais de segurança, elaborados pela Associação Nacional de Defesa Vegetal (Andev, que representa as indústrias químicas) e por instituições públicas de saúde, meio ambiente e agricultura.

De acordo com Abreu, os manuais de segurança contemplam seis etapas relacionadas ao uso dos agrotóxicos: aquisição, transporte, armazenamento, preparo e aplicação, destinação final das embalagens vazias e lavagem das roupas e dos equipamentos de proteção individual contaminados. Contudo, dentro de cada etapa há diversas medidas que, se não forem cumpridas, não se configura o uso seguro. É o caso da compra de produtos. A lei prevê que os agrotóxicos sejam prescritos por um agrônomo, após visitar a propriedade. No entanto, na maior parte dos casos, basta ir à loja, que um agrônomo emite na hora a receita agronômica, quando já não a deixa assinada na loja.

No estudo, ainda foram constatadas outras irregularidades, como o transporte em carros de passeio, motocicletas ou até mesmo em ônibus (e não na área externa das caminhonetes, como prevê os manuais); o armazenamento dos produtos em tulhas – locais onde são guardados os cereais –, paiol, na própria plantação ou até dentro de casa (o correto é em local próprio, distante de residências e de cursos de água); a lavagem das roupas utilizadas na aplicação dentro do mesmo tanque utilizado para as outras roupas da família e até mesmo a falta do uso dos EPIs. “Poucos disseram usar todos os equipamentos indicados e nenhum deles relatou saber o modo considerado correto de colocar e tirar os equipamentos, o que obviamente compromete a segurança desses trabalhadores”, declarou o pesquisador.

Segundo Pedro Abreu, "ao analisarmos toda essa situação, vemos que estamos diante de dois grandes nós. Um deles diz respeito à responsabilização desses agricultores pelos riscos e danos envolvidos na utilização de agrotóxicos. O outro refere-se à imposição, pelo Estado e pelas poderosas industriais químicas, de um modelo de produção de alimentos que é insustentável e dependente de agrotóxicos, com consequente ausência de políticas públicas que favoreçam os agricultores familiares. Eles estão completamente desassistidos".

Suas observações reforçam o que diz Claudio Silva, advogado do primeiro caso de óbito ocupacional por agrotóxicos comprovado pela justiça (relembre o caso aqui): “Existe um ‘mito’ que os agrotóxicos não fazem mal, se aplicado segundo determinados critérios. Essa falsa ideia interessa aos setores empresariais que se beneficiam da comercialização e aplicação dos agrotóxicos. Sabemos que o lobby é imenso. A parte mais frágil, que são os trabalhadores e consumidores, sofrem com graves danos, muitas vezes doenças crônicas ou mesmo a morte”.

A mesma opinião tem Luiz Claudio Meirelles, para quem as informações sobre agrotóxicos “interessam a toda população brasileira em seus diversos segmentos para que possam conhecer, se organizar, se defender e intervir sobre as situações que representam risco a vida. Mas não interessam aos que seguem lucrando com a alienação, a ignorância e a inoperância das instituições e organizações da sociedade”, afirma.

Foto do banner: Alba Sud Fotografia

Esta é a terceira reportagem da série “Agrotóxicos: a história por trás dos números”, realizada pelo Icict, com matérias sobre uso de agrotóxicos no Brasil. Leia as outras matérias da série aqui:




sábado, 10 de junho de 2017

O Pulso Ainda Pulsa 3: Quando trabalhar é Adoecer (Da Alienação a Depressão)


Em o pulso ainda pulsa 1, publicamos um relatório da indústria farmacêutica, que sem nenhum disfarce, lamentava a queda das doenças, resfriados e epidemias daquele ano devido ao clima ameno não esperado. Ao mesmo tempo, o relatório comemorava a previsão do tempo para o ano seguinte que anunciava clima ruim e, portanto, esperança de aumento das epidemias e doenças respiratórias, o que os faria recuperar os lucros.

No pulso ainda pulsa 2, em Receita marcada, a reportagem da TV Bandeirantes mostrou os laboratórios farmacêuticos, pagando viagens, festas, jantares luxuosos e distribuindo presentes aos médicos formados e ao futuros médicos, os induzindo a receitar seus remédios mais caros ou fidelizar os pacientes.

Hoje, o Norte compartilha com você, o terceiro post da série O Pulso Ainda Pulsa. Um excelente trabalho de pesquisa de Emílio Gennari sobre o adoecimento no mundo do trabalho. Gennari constatou que o sofrimento dos trabalhadores tem sido uma “ótima” fonte de lucro para a indústria em geral e principalmente para a indústria farmacêutica. O Capitalismo tem destruído sistematicamente seu criador, o trabalho.

Publicamos também uma adaptação do poema de Arnaldo Antunes, o Pulso. Na sequência você encontrará os links para ler online ou baixar os textos da pesquisa de Gennari. Leia com calma e a seu tempo e se puder estude-os.

  
O Pulso Ainda Pulsa

(Adaptação do poema de Arnaldo Antunes)

O pulso ainda pulsa...

Brupopiona, dipirona
Buscopan, Carbolitiun,
Risperidona, Hadol, hortelã
Sertralina, rivotril, Aspirina,
Centrum pra menino
Centrum pra menina
pro capital ouro, Mina


O pulso ainda pulsa
O pulso ainda pulsa...

Peste bubônica
Câncer, pneumonia
Raiva, rubéola
Tuberculose e anemia
Trabalho Sofrimento,
Depressão, Avaria
pro capital ouro, Mina
Mais - valia

E o pulso ainda pulsa
E o pulso ainda pulsa

Ansiedade, hipertensão
Úlcera, Gastrite,
Hepatite, escarlatina
Estupidez, paralisia
Estomatite, LER
Bursite, inflamação
Suicídio, letargia
Bournot, Depressão
Omeprazol, Ezomeprazol,
Leite de magnésio
Buscopan, injeção
Trabalho Sofrimento,
Depressão, Avaria
pro capital ouro, Mina
Mercado, lucro
Exploração, Mais-valia


E o corpo ainda é pouco
E o corpo ainda é pouco
Assim...


Reumatismo, raquitismo
Cistite, disritmia
Medo da fome
Hérnia, pediculose
Tétano, hipocrisia
Desemprego
Miséria
Brucelose, febre tifóide
Arteriosclerose, miopia
Catapora, culpa, cárie
Câimbra, lepra, afasia...
Reforma trabalhista, Previdência
Suicídio, letargia, Depressão
Capital e mais valia

Fluoxetina, diazepan,
Brupopiona, dipirona
Buscopan, Carbolitiun,
Risperidona, Hadol, hortelã
Sertralina, rivotril, Aspirina,
Centrum pra menino
Centrum pra menina
Trabalho Sofrimento,
pro capital ouro, Mina

O pulso ainda pulsa
E o corpo ainda é pouco
E o Lucro ainda é pouco
E o pulso ainda pulsa

E o Lucro ainda é pouco

Ainda é pouco
Assim...

Boa Leitura!













domingo, 4 de junho de 2017

O Pulso ainda Pulsa 2 - Receita marcada: A Indústria Farmacêutica e a "Corrupção de médicos"


O Pulso ainda pulsa 2

Tão revelador quanto o artigo de José Sarney é esta reportagem da Rede Bandeirantes de Televisão sobre a atuação da indústria farmacêutica, que "seduz", tanto jovens estudantes de medicina, quanto médicos experientes, por meio de almoços em restaurantes sofisticados ou vagens internacionais a paradisíacos centros de lazer e entretenimento.

Estas são provas irrefutáveis de que o principal interesse da indústria e dos laboratórios farmacêuticos na venda de remédios e equipamentos hospitalares é o lucro. a cura e a saúde dos pacientes fica em  segundo ou terceiro plano nas metas destas empresas. Em primeiro lugar está sempre os fartos e gordos lucros. Esta Reportagem dispensa comentários.

NORTE





“O Pulso Ainda Pulsa ... O Corpo Ainda é Pouco” (Arnaldo Antunes): A Depressão e outros males do trabalho.


                        

"O inverno foi muito fraco e, com o tempo bom, não tivemos a incidência de pneumonia nem complicações respiratórias. Os casos de gripe foram muito aquém de nossas previsões e os gastos com anúncios sobre nossos produtos, excessivos. Assim, pedimos a compreensão dos nossos acionistas para os baixos lucros, que não foram decorrentes da falta de esforço de nossos executivos". 

E continuava: "Contudo as perspectivas de melhoria são excelentes. Todas as previsões meteorológicas indicam que vamos ter um rigoroso inverno, com novos vírus gripais, não sendo descartada a hipótese de incidência de epidemias. Assim, o volume de consumo dos nossos medicamentos vai ser muito grande e explosivo, compensando o fraco desempenho deste ano". (Prestação de Contas aos Acionistas da Indústria Farmacêutica. Por José Sarney):
                                                                                       


Estranho!  O Conselho de Classe está publicando um artigo do José Sarney? Este sim verdadeiramente golpista com seu PMDB e o PFL de Marco Maciel e Antônio Carlos Magalhães, visto que, fizeram acordo com a cúpula militar a pedido da burguesia brasileira, e foram para o colégio eleitoral em 1985 elegendo indiretamente Tancredo Neves e José Sarney para presidente e vice, frustrando a maior campanha por eleições diretas (Diretas Já) do século XX no Brasil, contra a ditadura Civil Militar e por democracia

A História é conhecida. Tancredo pega uma infecção hospitalar durante uma cirurgia, more e o vice assume, teoria da conspiração é pouco, dizem que os militares e homens próximos a eles sabiam que Tancredo estava doente e que não durara muito, portanto, o governo ficaria com quem sempre apoiou a ditadura civil militar e usufrui dela.

Mas este não é o tema de nossa publicação. Nosso tema é a saúde do trabalhador. Por isto a grande contradição do sistema capitalista e não paradoxo como diz o José Sarney é que o trabalhador que produz toda a riqueza em nossa sociedade é destruído e perde sua saúde a cada dia a mais de trabalho. Na verdade, podíamos dizer sem meias palavras: O trabalho está matando o trabalhador. O trabalho na sociedade capitalista está adoecendo cada vez mais trabalhadores e suas famílias. E isto tem sido motivo de alegria para a indústria farmacêutica. O que José Sarney chama de paradoxo e severo de lógica capitalista mais acertadamente.

Publicaremos uma série de artigos e reportagens sobre o tema. Por incrível que pareça José Sarney é um deles. Não por ser um explorador, ex-presidente golpista, Coronel senhor de escravo do Maranhão ou aquele que comprou um ano de mandato por meio de concessões de rádio e televisão aos deputados e senadores, mas sim, por tornar público o relatório da indústria farmacêutica lamentando a ausência de doenças e comentando as previsões de aumento delas ano seguinte.

Boas leituras y Bons áudios e vídeos

NORTE


Um Mundo de Paradoxos 
Jose Sarney


Abro os jornais e leio que o desemprego aumentou nos Estados Unidos, que os juros vão crescer, que isso significa dificuldades para muitas famílias. É uma notícia triste. Estou errado. Para as Bolsas, não há nada de triste, ao contrário, é motivo de euforia, vão subir, estão felizes porque o desemprego e a recessão são bons sinais para a saúde delas. Quanto pior fica a vida para os que precisam de trabalho, melhor a daqueles que têm excesso de dinheiro e necessitam especular. É o que me ensina o presidente da Bolsa de Nova York, que foi além da euforia: "Melhor notícia não podíamos ter".

Lembrei-me de uma história que já contei aqui, mas que não resisto a repeti-la. Severo Gomes era ministro da Indústria e Comércio e recebeu um relatório de um grande laboratório internacional, destinado a seus acionistas, justificando os seus lucros baixos naquele ano:
"O inverno foi muito fraco e, com o tempo bom, não tivemos a incidência de pneumonia nem complicações respiratórias. Os casos de gripe foram muito aquém de nossas previsões e os gastos com anúncios sobre nossos produtos, excessivos. Assim, pedimos a compreensão dos nossos acionistas para os baixos lucros, que não foram decorrentes da falta de esforço de nossos executivos". E continuava: "Contudo as perspectivas de melhoria são excelentes. Todas as previsões meteorológicas indicam que vamos ter um rigoroso inverno, com novos vírus gripais, não sendo descartada a hipótese de incidência de epidemias. Assim, o volume de consumo dos nossos medicamentos vai ser muito grande e explosivo, compensando o fraco desempenho deste ano". Severo deu-me conhecimento do relatório e uma boa risada, advertindo que essa é a lógica capitalista.

No Carnaval, vi a grande discussão sobre se os desfiles deviam ou não incluir temas religiosos. Houve uma guerra de liminares. Quando as primeiras foram concedidas, proibindo a participação de Nossa Senhora da Esperança e do símbolo cristão da cruz, pensei que os carnavalescos estavam tristes. Ao contrário, estavam alegres, pois o fato aumentava a curiosidade sobre as escolas. Por outro lado, um dos organizadores do desfile considerou a proibição boa porque agora iam fazer uma ala só de cardeais, padres, bispos e monges, que seria obrigatória no Carnaval do próximo ano.

Uma jovem passista, que ia aos desfiles todos os anos e que foi pioneira no topless, ficara feliz com a liberação geral dos bustos, mas eu estava enganado. Ela declarou que estava triste porque agora ninguém olha para a novidade do seu próprio. Em Viena, sem ser Carnaval, em vez de mulheres, uma multidão de homens nus entrou na loja Kassa. Julguei que era gosto de andar pelado, mas era justamente o contrário: eles queriam vestir-se e ganhar uma mala de roupa, que seria dada pela loja numa promoção aos primeiros que chegassem.

Não deixa de ser paradoxal que os nossos homens públicos, depois de carreiras exitosas, estejam frustrados, não pelo bem que fizeram, mas pelo papel que poderiam ter desempenhado. O presidente Fernando Henrique queria ter sido ator; Pitta, bailarino do Municipal; Maluf, pianista no Metropolitan.
Picasso, nesse jogo de "o que quer ser", disse que se fosse padre seria papa; militar, marechal; quis ser pintor e era Pablo Picasso! A vida é assim...


quarta-feira, 17 de maio de 2017

Para o Primeiro de Maio: Marcinelle: vozes de uma tragédia.


 “Não há nada mais eficaz para a defesa dos oprimidos do que o simples e sincero relato de sua História. ” Foi o que escreveu Lisagaray, contemporâneo da Comuna de Paris de 1871, depois da derrota dos proletários naquela cidade.

O Artigo que publicamos abaixo contém um destes relatos sinceros sobre a situação dos trabalhadores italianos nas minas de carvão da Bélgica. Leitura obrigatória para nossos tempos nos quais, os senhores capitalistas e seu governo, atacam nossos direitos sem meias palavras, ignorando o quanto nós continuamos morrendo e adoecendo no trabalho cotidiano em minas, bancos, escolas, hospitais, fábricas, no campo e na cidade, enquanto produzimos riqueza a custa de nossas vidas.





segunda-feira, 1 de maio de 2017

Segunda é Dia de Branco: A Irritante Mania dos Donos e Defensores do Sistema de Chamar Rebeldes de Vagabundos.








“A todos os que como nós foram chamados de vagabundos neste pais e em todos os países e  que não se calam diante das injustiças, porque sabem que não há sequer um centavo da riqueza, uma gota de mel, um grão de arroz, um doente curado, uma palavra ensinada, um parafuso criado sem o nosso trabalho"



A insistente e irritante mania dos donos e defensores do sistema de nos chamarem os trabalhadores rebeldes de vagabundos, não é novidade. Os trabalhadores escravos negros e indígenas que se rebelavam fugiam das fazendas e minas ou trabalhavam devagar para suportar o sofrimento e o trabalho pesado e sabotar a produção, eram chamados de “negros preguiçosos e vagabundos”, os trabalhadores que protestavam contra a mudança da idade mínima para aposentadoria ouviram de Fernando Henrique Cardoso em 1998, quando presidente da República, a célebre frase:  quem se aposenta antes dos 50 anos é Vagabundo. Às vésperas da greve geral do dia 28 contra o Desmonte da previdência e o aumento da idade mínima para 65 anos e 49 anos de contribuição para aposentadoria, Dória, hoje prefeito de São Paulo, que já foi da administração de Mário Covas, empresário, herdeiro de senhores de escravos, chamou os grevistas do dia 28 de Vagabundos. Depois de fugir dos manifestantes em um helicóptero.

O NORTE publica aqui uma conversa tio para sobrinho que é expressão daquilo que pensamos. O Artigo discute o ditado popular:  “Segunda é dia de branco”. Boa leitura e nos avise se você concorda ou não.



Segunda Feira é dia de Branco



Meu sobrinho é negro e chegou em casa depois de um sábado na chácara com nossa família e amigos com uma pergunta no mínimo curiosa: Tio, por que os amigos do meu pai disseram que segunda feira é dia de branco? A pergunta o deixara confuso e intimidado olhando para si mesmo como se houvesse algo errado com sua cor. Ele não tem idade nem maturidade ainda para discutir questões étnicas ou raciais, mas sabe que sua cor é sempre “zuada” na escola, no futebol, no curso de inglês, nos jogos de vídeo game, etc. Ele ouve todos os dias expressões como, “ a coisa tá preta, cabelo de inxu, cabelo ruim, pixain, cabelo duro, macaco, a coisa tá preta, Zulu, negrooo, e ai preto! negão”

O professor de arte lhe diz que preto é na verdade, ausência de luz, ou que algumas vezes de forma imprecisa, que é ausência de cor. Esquecendo que preto é a mescla de vermelho, amarelo e Azul e que qualquer cor só pode ser vista por meio da luz.  O professor de história fala em “Black Tuesday”, Terça negra,  para marcar o Crash na bolsa de Nova York, que deu início a crise de 29 e usa a expressão “setembro negro”, da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) para contar sobre a morte dos atletas israelense na olimpíada de Munique em 1972. Para explicar os milhões de mortos pela peste bubônica no século XIV, os livros trazem a expressão “peste negra”. Nuvens negras rondam a economia, ele ouve nos jornais ou vê na internet.  Isto é um fato, mas dizer que segunda é dia de branco parece ter acionado algum mecanismo no seu cérebro que o fez romper o silêncio.

Respondi que não há nada de errado com nossa cor, existe o ouro negro, O Petróleo também chamado de ouro negro, a Pérola negra, a mais valiosa das pérolas, o diamante negro, uma a raridade, e disse mais, que é a noite escura que permite a gente ver as estrelas em toda a sua beleza e plenitude. Pego uma folha de sulfite, lhe mostro e pergunto: Você já viu alguém desta cor? Só morto tio, ele me responde. E olha lá, digo a ele, portanto, não existe ninguém “branco”, na verdade.


Vou ter que lhe falar de história para você entender a “zuação” com nossa cor e a expressão, segunda é dia de branco. Vivíamos livres na África, aliás, foi lá que a humanidade surgiu, portanto todos somos africanos ou descentes de africanos. Até os loirinho tio? Me interrompe. Sim, lhe disse, inclusive os alemães, meio “branquelos”, meio, porque branco branco na verdade não existe, como te expliquei. O chamados brancos da Europa reinventaram a escravidão e usaram a cor e a força como meio de decidir quem seria escravo, “escravidão negra”, escravidão dos africanos e dos indígenas no século XVI, para que nossa gente trabalhasse de graça pra eles. Os religiosos também “brancos” disseram que a gente não tinha alma e que estavam fazendo um bem ao nos escravizar e ao nos dar nomes cristãos; tais como, Samuel, Felipe, David, Elias, Benedita, Maria, José, Francisco, Isabel, Rita ... depois de um batismo forçado contra a nossa fé lá da África.

Os comerciantes “brancos” europeus ganharam dinheiro ao caçar, prender e vender homens, mulheres e crianças que eram livres na África. Depois, na América, fazendeiros também “brancos” e europeus se enriqueceram nos escravizando, nos obrigando a arrancar ouro e prata nas minas, plantar cana e produzir o açúcar, cuidar de suas casas, cozinhar, carregá-los em nossas costas.

Desse modo, comerciantes europeus, fazendeiros daqui se enriqueceram e se tornaram homens milionários, donos de dinheiro, empresas e terras, às custas de nosso trabalho de graça, de sol a sol e do roubo das terras dos índios, por mais de 300 anos. A saber, de 1550 até 1888 quando houve a abolição ... A nossa gente não fez nada tio, aceitou de boa o sofrimento e o trabalho em troca de comida e ainda ruim, que eu sei? Me perguntou contrariado. Não, respondi. Você tem paciência? Se tiver eu conto. Pode contar tio, jogo meu vídeo game depois. Beleza, respondi.

Então meu caro sobrinho, talvez agora você entenda porquê meus amigos, sem saber, acabaram usando uma frase racista, falsa e mentirosa sobre a segunda feira. Eu duvido que eles saibam porque falam isto da segunda Feira. Nossa gente trabalhando de sol a sol, 15 ou 16 horas por dia, sem ganhar um centavo, a não ser a comida, atacava os capatazes, que eram os guardas e chefes que ficavam olhando e obrigando a gente trabalhar de graça, com as enxadas e facões que eram nossas ferramentas de trabalho e fugia, formando Quilombos, territórios onde a nossa gente era livre e trabalhava  pra si mesma e mandava.

O mais famoso dos quilombos, foi o de Palmares, em Alagoas, no Nordeste Brasileiro. Ele durou mais ou menos 100 anos, de 1595 a 1695. Você já ouviu falar de Zumbi? Do Walking Dead tio? Não meu querido, Zumbi morto-vivo é filme de Hollywood, é televisão, o nosso Zumbi, o dos Palmares foi um guerreiro, um revolucionário libertador, lutou contra a escravidão e para que a gente trabalhasse pra gente mesmo e não para os outros. Era um grande líder negro, igual a Acotirene, Dandara, Ganga Zumba, Negro Cosme, Anastácia e outros tantos.

Bom, outra maneira de enfrentar os fazendeiros, além da guerra e da fuga, era trabalhar bem devagarinho, como se fosse uma tartaruga, e ir bem devagar pro serviço, igual quando você vai pra escola, entende? Devagarinho e desanimado, eles tinham razão porque eram escravos, você não, viu, seu.... Ri e ele também riu.... Continuando. Por isto, os negros que trabalhavam devagar, ou se recusavam a trabalhar e morriam de tristeza ou de cansaço, eram chamados de “ vagabundos e preguiçosos. Como prefeito de São Paulo tio? Sim, igualzinho o Dória, que aliás, suas tataravós se enriqueceram com o trabalho dos nossos tataravós, pois, a família dele era dona de escravos no passado, portanto, parte da riqueza dele que se diz trabalhador, é na verdade, fruto do trabalho de nossa gente, do trabalho dos escravos.

Ir para o trabalho no canavial e nas minas de ouro e prata na segunda feira, depois de uma folguinha no domingo a tarde, era uma verdadeira tortura, os escravos iam se arrastando pelos atalhos e caminhos, eles odiavam este dia, em compensação os fazendeiros e os chefes, capatazes que nada faziam a não ser enriquecer-se do trabalho de nossa gente ficavam felizes. Verdade tio? Claro! O que você faria no lugar de nossos irmãos do passado? Eu me mataria tio!  Alguns fizeram isto, mas a maioria preferiu lutar e resistir...

Vou terminar por aqui sobrinho. Você precisa brincar, este assunto está ficando muito sério. Mas guarde bem o que vou dizer, os fazendeiros brancos, os comerciantes também brancos que se enriqueciam com a venda e o trabalho de nossa gente, da gente da nossa cor, também exploravam os índios, que tiveram sua terra roubada e os brancos pobres, muitos soldados dos fazendeiros eram negros, ganhavam dinheiros para nos vigiar e perseguir, portanto, não é a cor que define quem é bom e quem é mal, quem é rico e quem é pobre, quem é preguiçoso ou trabalhador. Se você quiser usar bem e mal então use, mas o mau é aquele que nos escraviza, nos impede de ser livres e que fica se enriquecendo com o nosso trabalho, independentemente da cor.

Então tio, nesta história que você me contou, os brancos que se enriqueceram a custa dos negros e não precisavam trabalhar, disseram que segunda feira é dia de branco pra entrar na nossa mente e trolá a gente? Sim, caro sobrinho, segunda feira sempre foi dia de preto trabalhar e produzir riqueza para o branco comerciante e fazendeiro até o ano de 1888, como escravo, depois como assalariado. Chamar a segunda de dia de branco é falso, mentiroso e racista. Hoje as segundas feiras, trabalhadores brancos, negros, amarelos vermelhos, azuis verdes, cor de rosa, de todas as cores e portanto, independentemente da cor, produzem os lucros e a riqueza que fazendeiros e empresários de todas a cores usam pra pagar prefeitos e donos de  televisão e Jornais para nos chamarem de vagabundos, sempre que nos recusamos a trabalhar pra eles. Como nas greves tio? Sim, como na greve geral do dia 28 de abril por exemplo. Vagabundo é eles né tio? Não sobrinho, eles são piores, são exploradores.


José Benedito dos Santos


Brasil, 30 de abril de 2017, depois do churrasco de sábado com os

amigos vagabundos de todas as cores.