terça-feira, 21 de março de 2017

Dica do NORTE: Blog Almas Corsárias!

Hoje o NORTE vem trazer um dica muito preciosa para os amantes das artes e cultura em geral, o Blog Almas Corsárias!

Há quase dez anos no ar, esse site conta com um imenso e variado acervo de filmes, documentários, e-books, além de uma vasta coleção sobre Artes Plásticas.

Se você é professor de História, encontrará uma grande variedade de material para auxiliar em suas aulas. Um exemplo é a seção A Ditadura Militar no Brasil, onde o blog disponibiliza imenso número de postagerns sobre os 'Anos de Chumbo"

A seção de Documentários do Blog também merece destaque: Lá, você encontrará obras de grande qualidade e relevância, nos mais variados temas. Como sugestão deixo aqui o documentário " Antifa: Caçadores de Skins", sobre o combate ao facismo dos skinheads, pelos integrantes do movimento punk britânico.

O Blog Almas Corsárias conta com um acervo de quase mil filmes, que você poderá assistir online, ou baixar para assistir posteriormente, além de grande quantidade de e-books para download, livre de propagandas. Explore as possibilidades desse espaço e depois nos conte o que achou!!

sábado, 4 de março de 2017

A Economia Mundial na Confusão da Política Estadunidense: " Trump pode se Trumbicar"






Parece que agora o ano de 2017 começou verdadeiramente por estas terras. Acabou o 
carnaval. Então nada melhor do que uma boa e velha bússola pra gente encontrar o 
NORTE. Publicamos aqui mais uma análise de conjuntura de Emílio Gennari, que segue 
com eu olho de lince acompanhado os movimentos da conjuntura e seus atores, nos 
mostrando como estarão os mares por onde navegaremos. Ele tem uma boa e uma má 
notícia. Contamos primeiro a má: Tempos sombrios esperam nossa boa e velha classe 
trabalhadora: a boa:O Trump  pode se “trumbicar”.


1. Sobre a política de aumentar os impostos para os produtos         
    importados pelos EUA:



Além de poder aumentar os impostos sobre os importados dos EUA, para 
muitos produtos, é razoavelmente fácil encontrar fornecedores alternativos. 
Não por acaso, no final de janeiro, ao responder a uma declaração de Trump, os 
jornais chineses anunciaram que o país poderia deixar de comprar soja 
estadunidense e trocar as encomendas de aviões da Boeing pelos da Airbus. A 
imediata mudança de postura em relação a Pequim se deve a dois fatores: 1. 
Estudos apontam que 179 mil vagas da cadeia produtiva da Boeing dependem 
das encomendas de aviões efetuadas pela China; 2. A compra de soja de outros 
países cortaria 10% dos postos no agronegócio estadunidense, sem contar o 
desgaste político oriundo das reclamações dos fazendeiros...” (Emílio Gennari)




2.  Perspectivas para o futuro: teria como base os gastos elevados do Estado. 


De acordo com estimativas do Birô “O futuro é sombrio e as incertezas que se avolumam em seu horizonte não deixam margem a ilusões. A situação em que a classe trabalhadora se encontra não oferece chances reais de virar o jogo em curto prazo. Apesar disso, as primeiras respostas de resistência e rebeldia às quais assistimos nos EUA mostram que o silêncio dos de baixo não será parceiro de quem aposta no medo e na omissão para fazer vingar os projetos de cima. ” ( Emílio Gennari).


3.  Perspectivas para o futuro:


O futuro é sombrio e as incertezas que se avolumam em seu horizonte não deixam margem a ilusões. A situação em que a classe trabalhadora se encontra não oferece chances reais de virar o jogo em curto prazo. Apesar disso, as primeiras respostas de resistência e rebeldia às quais assistimos nos EUA mostram que o silêncio dos de baixo não será parceiro de quem aposta no medo e na omissão para fazer vingar os projetos de cima. ” ( Emílio Gennari).


Boa Leitur



Emilio Gennari – Educador Popular

E-mail: epcursos@gmail.com



 A  Economia Mundial  na Confusão da Política Estadunidense

        
Passados 40 dias da posse de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos, as incertezas que pairam sobre a economia mundial estão longe de se dissipar. Declarações contraditórias no campo das relações internacionais, conflitos com o poder judiciário, manifestações de descontentamento em várias frentes, posturas autoritárias e promessas no lugar de planos de governo semeiam dúvidas num cenário que anseia por respostas. O desejo de “Fazer a América grande” passa, necessariamente, pelo acerto de contas entre a realidade da economia e a ação política que busca alterar os seus rumos. Mas é justamente aqui que começam os problemas.
         A primeira impressão é a de que o país deixado por Obama não é o mesmo que Trump diz ter herdado. Em breves palavras, no apagar das luzes de 2016, os EUA apresentam:
ü Sete anos de crescimento econômico com a criação de 11 milhões e 300 mil postos de trabalho, marca que fez o desemprego recuar a 4,7% da população economicamente ativa;
ü Ainda que a grande maioria das novas vagas seja de trabalhos com baixa ou nenhuma qualificação, em 2016, o salário médio fechou com um aumento real de 2,9%;
ü Uma indústria que anda bem das pernas em termos de competitividade e inovação sem perder a chance de elevar os lucros corporativos ao instalar unidades em paraísos fiscais, ambientais e de baixo custo da força de trabalho;
ü Um déficit fiscal que, graças ao crescimento da arrecadação, caiu de 9,8% no primeiro ano do seu mandato para 3,2%, em dezembro de 2016;
ü O mais baixo contingente de pessoas sem seguro saúde da história;
ü Uma redução média de 13% no número de assassinatos e de 6% no de todos os outros crimes, ainda que, em algumas cidades, os índices de violência tenham aumentado.
         Pelos números acima, não há elementos que confirmem a visão de um país em situação catastrófica, conforme apontado por Trump. De um lado, isso explica porque Obama encerra o mandato com uma aprovação de 62%, mas, de outro, torna necessário entender que expectativas alimentam os setores que apostaram em Trump.
         De acordo com as pesquisas, a maioria dos votos no novo presidente veio de:
ü Brancos, sem estudos, maiores de 30 anos, evangélicos, conservadores da classe alta, moradores das cidades mais atingidas pela desindustrialização e das áreas rurais;
ü 67% dos seus eleitores acreditam que o desemprego aumentou com Obama;
ü 53% afirmam que os crimes cresceram em número e gravidade;
ü Somente 17% dos que se identificam como “republicanos” sabem que o contingente de pessoas sem seguro saúde é o mais baixo da história.
Entre os setores econômicos que apoiam o novo presidente, destacamos:
ü Fazendeiros que apostaram na redução dos impostos e na ampliação dos empréstimos para conseguir financiamentos mais baratos;
ü Pequenas e médias empresas que viram seus negócios encolherem devido à migração das grandes indústrias além de organizações de lojistas, restaurantes e franquias para as quais as promessas de empregos com altos salários são sinônimo de aumento do faturamento. Este conjunto de forças proporcionou a capilaridade da penetração nos distritos eleitorais que o discurso de Trump precisava;
ü O complexo industrial-militar que adorou as perspectivas de aumento dos gastos bélicos, as declarações que apontavam para uma nova corrida nuclear e a postura de enfrentamento com Rússia, China, Coréia do Norte e Irã;
ü Os setores do petróleo, gás e carvão que passaram por maus momentos em função dos preços baixos e das restrições ambientais que haviam limitado suas atividades;
ü As instituições financeiras que desejam a desregulamentação do setor para ampliar as operações de crédito e a especulação;
ü As construtoras que arregalaram os olhos diante da proposta de investir U$ 1 trilhão em infraestrutura durante os próximos quatro anos;
ü O setor farmacêutico ao qual Trump prometeu não controlar os preços, oferecer incentivos fiscais e acelerar a liberação de novos medicamentos.

          Bastam estas breves linhas para percebermos a carga de expectativa que cerca a Casa Branca. No momento em que escrevemos, porém, há mais discursos e declarações intempestivas do que definições concretas em relação à política econômica e às diretrizes internacionais a serem adotadas. Por isso, o primeiro passo é separar o que Trump diz ter intenção de fazer do que ele realmente tem feito. O segundo trata de analisar o que os discursos anunciam e com que limites econômicos vão se deparar caso cumpram o que prometem.

          Entre os primeiros atos do governo Trump, consta a assinatura de um decreto que retira os Estados Unidos da mesa de negociações do Tratado Trans Pacífico. Viabilizado na administração Obama com a intenção de conter a expansão econômica da China, era considerado o pilar da política estadunidense para a região. À medida que o acordo reduziria os ganhos de Pequim no comércio exterior, a China contaria com menos recursos para sustentar o seu crescimento econômico e o aparato militar de que dispõe.
        
         O acordo seria assinado entre 12 países[1] cujas economias representam cerca de 40% do Produto Interno Bruto mundial e, no primeiro ano de funcionamento, permitiria elevar o PIB estadunidense em meio ponto percentual. A saída de Washington das negociações do Tratado colocou em jogo a seriedade das promessas estadunidenses para a região e provocou comemorações na China que busca ocupar o vazio de liderança deixado pelos EUA. O mesmo espaço está sendo disputado também pela União Europeia que, ao temer uma retaliação estadunidense às suas exportações, trata de ampliar mercados para desovar a produção.
         No mesmo período, foram assinados outros decretos que ordenam a construção de um muro ao longo da fronteira com o México, suspendem por 120 dias o acesso de refugiados e imigrantes vindos de países com maioria muçulmana[2] e permitem que qualquer imigrante, entrado ilegalmente no país nos últimos dois anos, possa ser detido e deportado por motivos banais. Some a isso o fato de os decretos mais recentes preverem que as polícias locais se envolvam no cumprimento da legislação migratória, que agentes de fronteira e até ajudantes de xerifes possam deter indiscriminadamente quem eles consideram um risco para a segurança e perceberá que as normas de Trump abrem caminhos a todo tipo de abuso e violação dos direitos humanos.
         Os decretos sobre a imigração têm fortalecido a oposição dentro e fora do país. Após 8 dias de mandato, as pesquisas de opinião apontavam que a desaprovação a um ato do governo atingia 52% da população. Um verdadeiro recorde quando pensamos que Bush filho demorou 1205 dias, Obama 936 e Clinton 573. Contudo, o repúdio popular, que vê reunidas forças progressistas outrora distantes, ainda passa longe de causar danos aos planos do novo presidente que faz do medo e do anseio de grandeza estadunidense as peças-chave da sua intervenção.
         Os problemas maiores que estão sobre a mesa de Trump vêm da base econômica, cujo peso foi determinante no rol de pressões que levaram o judiciário a suspender os decretos referentes aos refugiados e aos imigrantes dos estados com maioria muçulmana e que prepara novas investidas. Por isso, o melhor a fazer é montarmos o quebra-cabeça da relação imigrantes-lucratividade dos negócios cujas perdas são um motivo que convence bem mais os capitalistas atingidos do que o respeito dos direitos humanos e das normas constitucionais. Vamos por partes:
ü A ideia de bloquear a imigração ilegal na fronteira com o México não é uma novidade. Algum tipo de barreira (muro na fronteira entre Tijuana e San Diego, seções de muro no Arizona, Novo México e Texas, alambrado, iluminação de alta intensidade, câmaras de vigilância com visão noturna, detectores de movimento, vigilância armada de policiais, helicópteros, etc.) já existe em 1046 dos 3200 km da fronteira que separa os dois países. Os trabalhos começaram com Clinton, em 1994, e continuaram nas administrações posteriores. Além disso, o próprio Obama expulsou 2 milhões e 800 mil clandestinos durante os seus dois mandatos. O projeto de Trump, portanto, não representa algo novo, ainda que, para ele, impedir o ingresso de imigrantes e caçar os clandestinos permitiria retirar muita gente do território estadunidense, assegurar um nível maior de segurança pública, reduzir os prejuízos do Estado em função dos gastos sociais que sua presença acarreta e deixar para os estadunidenses as vagas que antes eram dos estrangeiros.[3]
ü No que diz respeito à suspensão da entrada de refugiados e imigrantes vindos de Irã, Somália, Síria, Iraque, Líbia, Iêmen e Sudão, as preocupações com o terrorismo caminham lado a lado com uma suspeita geral contra muçulmanos e originários desses países que nunca foram responsáveis por atos terroristas nos EUA. A Arábia Saudita, pátria dos autores dos atentados de 11 de setembro está fora da lista pelo que representa em termos geopolíticos o fato de estar umbilicalmente ligada a Washington e não pelo que alguns de seus cidadãos, integrantes de grupos terroristas, já fizeram em território estadunidense. Desde a queda das Torres Gêmeas, os autores de atos com mortes violentas foram indivíduos nascidos nos Estados Unidos, ainda que, em suas ações, invocassem relações com o estado Islâmico.
ü Mas é na economia onde encontramos os maiores problemas. Vejamos.
·        As pesquisas da Universidade da Califórnia estimam que 70% dos trabalhadores agrícolas do estado são imigrantes ilegais cujos salários médios estão em U$11 por hora, menos da metade da média estadunidense. 
·        Nos anos 70, as empregadas domésticas eram quase todas afrodescendentes nascidas nos EUA. Hoje, metade delas é de imigrantes, sendo que, desse total, 23% ganham menos de um salário mínimo (U$ 7,25 a hora), apesar de viverem legalmente no país.
·        Mas os imigrantes não ocupam apenas os postos que os estadunidenses rejeitam. No Vale do Silício, sede das grandes empresas de tecnologia, 37,4% dos residentes são imigrantes, sendo que, entre os empregados de 25 a 40 anos a porcentagem deles sobe a 49,8%. Nesta mesma faixa etária, nas áreas de computação e matemática, 3 em cada 4 trabalhadores é oriunda de outros países. Ou seja, a produção e a pesquisa contam com pessoas talentosas que são uma componente estrutural, e não apenas casual ou sazonal, da força de trabalho que alimenta a economia dos EUA.
Os exemplos acima levantam perguntas incômodas. Quantos estadunidenses “legítimos” se disporiam a ocupar estas vagas pelos salários que hoje são pagos aos imigrantes? Quantos fazendeiros, empresas de pequeno porte e famílias aceitariam de bom grado níveis salariais que minam seus lucros ou consomem um volume maior de suas rendas? Ainda mais sabendo que sua base de sustentação econômica está alicerçada num trabalhador cuja precariedade é a peça-chave da aceitação dos baixos salários atualmente pagos? Não é por acaso que uma centena de grandes empresas (como Microsoft, Apple, Google, Facebook e Amazon) se juntaram para repudiar o decreto de Trump contra refugiados e imigrantes de sete países muçulmanos, alegando que “infligia um dano significativo aos negócios, à inovação e ao crescimento dos Estados Unidos”.
         Durante a campanha eleitoral, os discursos de Trump apresentavam 4 pontos essenciais para dobrar o índice de crescimento médio da economia estadunidense:
1.     Taxar os produtos importados a fim de desestimular a compra e forçar uma renegociação dos acordos comerciais com base nos interesses estadunidenses;
2.     Atrair os investimentos disponíveis com políticas de isenções fiscais e subsídios para evitar a transferência de empresas para o exterior;
3.     Desonerar a produção local a fim de elevar a competitividade e expandir as exportações;
4.     Elevar os salários e criar mais empregos.
         Apesar de ainda não termos nada concreto, vale a pena esboçar algumas consequências que seriam produzidas a partir da implantação de medidas que rumam nesta direção.
         Diante do déficit da balança comercial com China, México, União Europeia, Japão e outros países, Trump acha oportuno reduzir os impostos que pesam sobre a produção local e taxar os importados para melhorar a competitividade das mercadorias estadunidenses e reduzir as compras do exterior. Na campanha eleitoral, chegou a falar de um imposto entre 35% e 40% sobre os carros produzidos fora do país, sem dar maiores detalhes. Neste momento, vozes de bastidores afirmam que estaria se orientando para um imposto geral em torno de 20% sobre as importações. Além de reduzir o déficit comercial, as medidas atrairiam investimentos para os Estados Unidos, penalizando países que, graças aos acordos assinados ou a uma concorrência desleal, teriam subtraído à economia cerca de 3,5 milhões de empregos nos últimos 15 anos.
         Aparentemente, o raciocínio parece brilhante e sem efeitos colaterais indesejados. O problema é que isso é “só” aparentemente. Vejamos:
1.     Quem paga impostos sobre os importados não é a empresa ou o país exportador, e sim a população que gasta mais por produtos que eram baratos. Pagar mais caro, além de desagradável, reduz o consumo pessoal e aumenta a inflação. Em janeiro deste ano, os índices de preços já sentiram os efeitos da alta dos combustíveis no mundo inteiro e alguns estudos apontam uma tendência dos consumidores em reduzir seus gastos. Isso ocorre pela ação de dois fatores. De um lado, com os preços subindo, os salários compram menos. De outro, as famílias estadunidenses têm o mesmo patamar de endividamento médio do período anterior à crise, o que dificulta a manutenção dos níveis de consumo. Sabendo que os gastos pessoais representam 70% do PIB dos EUA, a possibilidade de uma desaceleração da economia é algo real e ganha força em função da elevação da taxa de juros que o Banco Central iria praticar para controlar a inflação.
2.     È fato que México, China, União Europeia e Japão não se limitam a vender para os EUA, mas também compram deles. O caso mexicano é sem dúvida o mais emblemático, à medida que 73% de suas exportações se destinam ao vizinho do norte do qual também compra grande parte do que é utilizado na produção das mercadorias a serem vendidas no exterior e produtos essenciais para o consumo da população. No caso dos automóveis, por exemplo, a porcentagem de componentes adquiridos dos EUA e montados nos carros que, em seguida, serão vendidos neste mercado é de 54%. Desta compra dependem cerca de 1,9 milhões de empregos das indústrias estadunidenses.
Quanto à China, estima-se que um imposto de 20% sobre suas exportações encolheria o crescimento anual do PIB do país a não mais do que 3,5%, a metade do atual. Efeitos semelhantes ocorreriam também com Japão e União Europeia. Com a economia em marcha ré, não haveria porque estes países manterem o mesmo nível de importações dos EUA. Ou seja, os impostos criados para dificultar a entrada de produtos estrangeiros acabariam prejudicando também as exportações que Washington busca ampliar.
3.     Qualquer tratado comercial entre países prevê cláusulas que definem qual será o procedimento a ser seguido em caso de desistência de um dos membros ou de barreiras que alterem as condições acordadas. Ainda que, por exemplo, Trump decida sair do NAFTA[4], o país continuaria submetido às normas da Organização Mundial do Comércio que preveem a possibilidade de um membro elevar a taxa média de imposto sobre as importações em, no máximo, 3%. Desrespeitar este limite abre a possibilidade de os países atingidos aplicarem retaliações contra as exportações de quem elevou os tributos alfandegários, situação que desencadearia uma guerra comercial que colocaria a economia mundial à beira de uma nova crise.
4.     Além de poder aumentar os impostos sobre os importados dos EUA, para muitos produtos, é razoavelmente fácil encontrar fornecedores alternativos. Não por acaso, no final de janeiro, ao responder a uma declaração de Trump, os jornais chineses anunciaram que o país poderia deixar de comprar soja estadunidense e trocar as encomendas de aviões da Boeing pelos da Airbus. A imediata mudança de postura em relação a Pequim se deve a dois fatores: 1. Estudos apontam que 179 mil vagas da cadeia produtiva da Boeing dependem das encomendas de aviões efetuadas pela China; 2. A compra de soja de outros países cortaria 10% dos postos no agronegócio estadunidense, sem contar o desgaste político oriundo das reclamações dos fazendeiros...
5.     É sempre bom lembrar que parte significativa dos produtos exportados para os EUA é produzida por corporações daquele país que instalaram unidades no exterior a fim de aproveitar uma legislação trabalhista e ambiental permissiva, acesso fácil a matérias-primas e energia, financiamentos estatais favoráveis, incentivos e isenções de impostos, estruturas de transporte à altura das necessidades, facilitações na hora de remeter lucros ao exterior e salários bem inferiores aos que seriam pagos no país de origem. Esta simples constatação abre algumas questões que depõem contra as expectativas de Trump:
a.      Frear as exportações para os EUA atingiria os lucros das empresas norte-americanas que instalaram unidades no exterior e vendem a partir delas para o país de origem.
b.              Qual seria o preço de uma mercadoria se ela voltasse a ser inteiramente produzida nos EUA? O caso das montadoras estadunidenses que instalaram unidades no México ajuda a visualizar o alcance desta questão. Em território mexicano, elas montam veículos com uma força de trabalho cujo salário médio é de U$ 9,75 por hora (bem inferior aos U$ 29 por hora pagos nos EUA), sem contar as diferenças em termos de direitos e condições de trabalho. Qual seria o preço de um carro desses modelos se fosse produzido inteiramente nos Estados Unidos?
Para reduzir os custos, seria necessário lançar mão de uma ampla automação dos processos de trabalho. Os empregos criados na produção de robôs seriam suficientes para repor as perdas sofridas com os cortes nas linhas de produção? Até onde o Estado poderia bancar eventuais contrapartidas que os empresários considerassem necessárias para gerar lucros satisfatórios em unidades mantidas nos EUA? São perguntas para as quais Trump e sua equipe não apresentam respostas.
         A ideia de atrair os investimentos que estão fora do país não provocaria apenas efeitos positivos para o crescimento econômico e a geração de empregos, mas representaria uma ameaça às perspectivas de médio prazo da economia estadunidense. De fato, ao migrarem para os EUA, estes capitais, que hoje tem seu valor expresso nas moedas dos países que hospedam seus investimentos, deveriam ser convertidos em dólares. A elevada demanda desta moeda valorizaria o dólar no mercado mundial num processo que amplia os efeitos positivos do crescimento econômico estadunidense que empurram a moeda nesta mesma direção.
         O dólar em alta aumentaria o poder de compra dos moradores dos Estados Unidos em relação aos importados e, a depender do patamar atingido frente às demais moedas, poderia até anular os efeitos dos impostos sobre os produtos comprados de outros países. Por outro lado, as exportações dos EUA ficariam mais caras, à medida que os compradores seriam obrigados a gastar quantias maiores de suas moedas locais para adquirir o que antes era mais acessível.
         Mas isso não é tudo. As empresas que produzem a partir de insumos importados seriam favorecidas por poderem comprar quantidades maiores pela mesma quantia de dinheiro, mas aquelas que exportam a partir da produção local perderiam terreno. Difícil estimar de quanto seriam as perdas totais, mas é certo que haveria um impacto negativo sobre as receitas vindas das exportações que, por exemplo, para as empresas do índice S&P 500 da bolsa de valores, gira em torno de 45% do faturamento. Elevar a eficiência com mais automação é a saída mais provável para baratear as mercadorias produzidas, mas, como vimos acima, isso também tem efeitos colaterais indesejados.
         Moeda valorizada e taxa de juros em alta para conter a inflação elevariam também a dívida interna dos EUA e os gastos do governo com os serviços da própria dívida, encolhendo as verbas para investir em infraestrutura, produção de armamentos e outros bens dos quais o Estado é o principal comprador. A falta de dinheiro e o aumento da dívida complicariam ainda mais as contas públicas se, de acordo com os discursos de Trump, a redução dos impostos for uma das peças-chave para estimular gastos e investimentos. Sabemos que o equilíbrio entre receitas e despesas nunca foi uma preocupação dos presidentes republicanos e pode ser parcialmente compensado com cortes em outras áreas do governo. Mas o patamar em que se encontra a dívida estadunidense não oferece margens capazes de realizar as promessas de campanha.
         Último, mas não menos importante, a taxa de juros abaixo de 1% desde a crise de 2008 fez com que muito dinheiro saísse dos EUA rumo aos mercados emergentes onde os rendimentos eram maiores. Parte dele foi para empresas que preferiram o endividamento externo por ser mais barato em relação ao local e cujo montante hoje é estimado em U$ 4,5 tri. Dólar valorizado, juros em alta e superávit comercial em queda podem elevar a possibilidade de um calote por parte de nações ou empresas devedoras e colocar os bancos credores em maus lençóis.
         Apesar de, até o momento, termos discursos de sobra e poucas medidas que permitem esboçar os cenários futuros, as reflexões que traçamos são suficientes para percebermos que nenhum governo consegue negar a realidade do mercado e reverter seu funcionamento sem consequências que podem ser duras e de efeito prolongado. Intenções e vontade política precisam acertar contas com a realidade e seus desdobramentos, razão pela qual o que parece inicialmente favorável, em médio prazo, pode se transformar em entrave.
         Os eleitores de Trump podem ver suas esperanças frustradas por mais estas razões:
ü Elevar o número de indústrias não é sinônimo de trazer de volta os patamares salariais do passado. De um lado, a automação reduz fortemente as vagas disponíveis e, mais ainda, as que pagam “bons” salários. De outro, não podemos excluir a possibilidade de os Estados Unidos repetirem o que conheceram nos anos 80, sob Ronald Reagan, quando Toyota, Honda e Nissan instalaram unidades destinadas a produzirem carros de luxo em regiões com baixa ou nenhuma atividade sindical. Esta opção permitiu elevar a produtividade e oferecer salários de 20 a 25% inferiores aos que eram pagos por Ford, Chrysler e General Motors. Além de verem sua fatia de mercado encolher de 84% para 69% em menos de uma década, a automação e a redução dos efetivos fez com que o número de sindicalizados em Detroit caísse de 1,6 milhão para pouco menos de um milhão, fragilizando ainda mais a luta por melhores salários e condições de trabalho.
ü Diante do desmonte do seguro saúde criado por Obama, a Comissão de Orçamento do Congresso estadunidense estima que 18 milhões de pessoas ficarão sem cobertura em 2017, número que atingirá os 30 milhões em 2020.
ü Na educação, o futuro não é promissor. A multimilionária conservadora Betsy DeVos, que está à frente desta secretaria é considerada pelos democratas do Congresso como “inimiga da escola pública” por ser uma franca defensora da ideia pela qual o governo deve entregar a educação das crianças ao ensino privado.
ü No campo dos direitos humanos se preparam dias difíceis. De um lado, o tratamento que será dispensado aos imigrantes promete abusos de todos os tipos, incentivados pelas imagens que pintam estas pessoas como más, pobres, violentas, perigosas e como uma ameaça aos valores americanos. Trata-se de um discurso que semeia medo e preconceitos entre a população ao mesmo tempo em que oculta de onde vem a riqueza do país e as causas estruturais da migração. De outro, Trump já deu várias declarações que apoiam e deixam a critério da CIA e do Departamento de Defesa o uso da simulação de afogamento e das Técnicas Avançadas de Interrogatório, denunciadas como tortura por parlamentares e grupos de direitos humanos, e proibidas por Obama.
ü Varrer a criminalidade é o objetivo de todo governante. Mas quem são e onde se escondem os verdadeiros articuladores do crime? Prender um traficante que vende cocaína nos bairros é relativamente fácil. Mas como resolver os problemas que levam mais gente a ingressarem nas fileiras do crime? Quem se dispõe a acabar com os senhores do tráfico de armas e drogas, cujos negócios anuais são estimados em U$ 650 bilhões, boa parte dos quais são lavados nas bolsas de valores estadunidenses e sustentam os negócios que aí se realizam?
         Como deixamos entrever acima, as escolhas de Trump não limitam seus efeitos ao território nacional, mas aumentam o grau de incerteza que permeia a economia mundial.
         De acordo com os dados da ONU, 2016 se encerrou com investimentos estrangeiros diretos pelo mundo da ordem de U$ 1,52 tri, 13% a menos em relação a 2015.
         Seguindo os critérios utilizados pelo Banco Mundial, em 2014, o ritmo de crescimento do comércio internacional havia aumentado 2,4% em relação ao ano anterior. Na comparação entre 2015 e 2014, o ritmo da elevação caiu para 2%, número que encolheu para 1,09% na relação entre 2016 e 2015. Quanto maior o protecionismo, mais esta porcentagem tende a encolher, freando o caminhar da economia mundial.
         Paralelamente a isso, o encarecimento dos combustíveis vem elevando os índices de inflação de 2017 nos EUA, União Europeia e China, o que corrói o poder de compra dos salários e a possibilidade de o consumo pessoal continuar estimulando a atividade econômica.
         Para desenhar com mais precisão as tendências de desenvolvimento da economia mundial precisamos aguardar as medidas que Trump promete anunciar nas próximas semanas. Só assim conseguiremos ponderar melhor as ondas de choque que criarão na economia mundial e, sobretudo, seu potencial para empurrar o mundo rumo a uma nova crise.
         Em termos de classe trabalhadora, o caminho das perdas como forma de elevar a competitividade da produção está aberto faz tempo. As investidas de Trump e a insegurança por elas alimentada apenas jogam gasolina no fogo da exploração.
         Os empresários alemães, por exemplo, apesar de contarem com elevados índices de competitividade dentro e fora da Europa, solicitaram ao governo ações que melhoram a infraestrutura do país, incentivos para aumentar a automação e a integração das cadeias produtivas e um plano para reduzir os impostos sobre a produção a fim de compensar as eventuais vantagens que as empresas estadunidenses obteriam graças à redução dos impostos e à elevação das taxas alfandegárias prometidas por Trump.
         Por outro lado, sugerem que sejam eliminados os incentivos para os pais ficarem em casa para cuidar dos filhos e que o Estado proporcione às crianças um melhor atendimento público para liberar a participação feminina no mercado de trabalho através de contratos por tempo parcial. Longe de ser um estímulo à emancipação, a preocupação dos patrões é a de criar uma realidade que aumente a força de trabalho disponível a fim de fortalecer a precarização e reduzir os salários. Mais uma vez, os trabalhadores arcariam com o peso da disputa capitalista cujos efeitos tendem a ser ainda maiores nos países cujo parque industrial e déficits públicos estiverem num grau bem mais problemático em relação à economia alemã.
         O futuro é sombrio e as incertezas que se avolumam em seu horizonte não deixam margem a ilusões. A situação em que a classe trabalhadora se encontra não oferece chances reais de virar o jogo em curto prazo. Apesar disso, as primeiras respostas de resistência e rebeldia às quais assistimos nos EUA mostram que o silêncio dos de baixo não será parceiro de quem aposta no medo e na omissão para fazer vingar os projetos de cima.


         Brasil. 03 de março de 2017.


[1] EUA, Chile, México, Peru, Canadá, Nova Zelândia, Malásia, Japão, Vietnã, Austrália, Cingapura e Brunei.
[2] Irã, Somália, Síria, Iraque, Líbia, Iêmen e Sudão.
[3] É importante ressaltar que pesquisas recentes apontam a falácia da ideia pela qual a expulsão dos imigrantes teria como base os gastos elevados do Estado. De acordo com estimativas do Birô Nacional de Pesquisas Econômicas, anualmente, os cerca de 11 milhões de trabalhadores clandestinos produzem U$ 500 bilhões ao passo que a soma dos custos federais, estaduais e municipais com eles não passa de U$ 113 bilhões. Uma troca mais que vantajosa para a economia dos EUA.
[4] NAFTA: Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (North American Free Trade Agreement, pela sigla em inglês), assinado entre EUA, Canadá e México, começou a vigorar em 1º de janeiro de 1994.




sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

O Que o Governo e a Imprensa e os Defensores do Sistema Escondem de Você: Empresas devem mais de 1 Trilhão de Reais para o Governo - Esta é a verdadeira causa do rombo e do déficit público.









A capacidade dos defensores do desmonte da previdência em mentir e falsear a realidade é vergonhosa. O NORTE pública este artigo que ajuda a revelar as mentiras do Estado e dos defensores do sistema que querem desmontar a previdência pública.

Grandes Empresas devem mais de um trilhão de reais para o governo e ainda faturam o dinheiro dos impostos por meio de compras do títulos da dívida pública. " É uma Vergonha".






Em tempos nos quais a FIESP e seu presidente, Paulo Skaff, não demonstram nenhum constrangimento de sair às ruas para chamar grande manifestação a protestar contra o aumento de impostos anatematizando, sobretudo, a articulação do governo para a aprovação da CPMF, é preciso relembrar qual é o grande problema que coloca o Brasil na lona para que você, efetivamente, não seja o pato que FIESP e seu presidente acreditam que você é.


Como já se discutiu AQUI, um dos grandes problemas desse país é a sonegação de impostos, em especial, de grande número de pessoas jurídicas (68 mil) com dívidas superiores a R$ 1 milhão. Somados os números do calote, o rombo é de R$ 1,17 trilhão, como podemos ver na imagem abaixo, retirada de estudo feito pelos Analistas Tributários da Receita Federal do Brasil para o Sindireceita (http://sindireceita.org.br/…/Alternativas-para-enfrentar-a-…).

Percebam, estamos falando aqui de R$ 1,17 TRILHÃO, valor aproximado ao PIB da Dinamarca (2014), por exemplo. Segundo dados da Procuradoria Geral da Fazenda Nacional, os setores que mais devem à União são bancos, mineradoras e empresas de energia elétrica. Destes, 90% são grandes empresas. Mais que isso: dois terços dos valores devidos aos cofres da União estão concentrados em 1% dos devedores. Colocando em números, os maiores devedores são a indústria (R$ 236,5 bilhões), o comércio (163,5 bilhões) e o sistema financeiro (R$ 89,3 bilhões). Também devem à União empresas de mídia (R$ 10,8 bilhões), educação (R$ 10,5 bilhões) e extrativismo (R$ 44,1 bilhões).

A mineradora Vale do Rio Doce encabeça a lista dos dez maiores devedores com uma dívida de R$ 41,9 bilhões, seguida por Parmalat (R$ 24,9 bilhões), Petrobras (R$ 15,6 bilhões), Ramenzoni Indústria de Papel (R$ 9,7 bilhões), Duagro (R$ 6,6 bilhões), Vasp (R$ 6,2 bilhões), Bradesco (R$ 4,9 bilhões), Varig (R$ 4,7 bilhões), American Virgínia Tabacos (fabricante dos cigarros San Marino, Seleta, Oscar, Indy e West. Deve R$ 4,1 bilhões) e Condor Factoring (R$ 4,1 bilhões). Apenas estas dez empresas são responsáveis por 10% de toda a sonegação de impostos do país.

Abaixo uma lista contendo os vinte maiores sonegadores brasileiros.

Fonte: Site da Associação dos Beneficiários da Cemig Saúde e Forluz (ABCF) com dados do Ministério da Fazenda.

Para além dos vinte primeiros nomes, ainda chama atenção a dívida de empresas como Companhia Brasileira de Distribuição (1,5 bilhão), Banco Itaucard (1,3 bilhão), Cervejaria Kaiser (1,3 bilhão), Volkswagen (1 bilhão), Bombril (1 bilhão), Unilever (1 bilhão)  e Coca-Cola (741 milhões), dentre outras gigantes.
Como lembrou matéria publicada no site da ABCF: “os devedores deixam seus nomes serem inscritos na Dívida Ativa da União e só pagam quando obrigados por decisão judicial”. Tal estratégia, como destaca a matéria, é cada vez mais comum e ficou conhecido como “planejamento tributário”. A ideia por trás de tal “planejamento” é que para empresa é muito mais vantajoso ficar devendo e, quem sabe, no futuro, se beneficiar de alguma renegociação para a quitação de dívida ou pagar o valor devido corrigido. Como se sabe, a proposta de quitação da dívida, ainda que os valores sejam altos, não se compara ao verdadeiro valor que a empresa pagaria caso pegasse um empréstimo no sistema financeiro.

Eis a cortina de fumaça que a FIESP e o senhor Paulo Skaff estão armando com essa campanha do pato para que você continue sem saber que o verdadeiro pato é você, contribuinte, que paga pelas dívidas das empresas que sonegam bilhões em impostos.